Os (não) esclarecimentos

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Abri a boca para corrigi-lo novamente, mas o que acabou saindo foi:

— O que?

— Estou certo de que você tem uma boa audição, querida — Grigori não estava sendo rude nem nada, pelo contrário. Estava calmo da mesma maneira que um médico fica ao tranquilizar seu paciente ao anunciar um câncer. — Também estou certo de que me ouviu quando eu disse que não deve me interromper e estou mais certo ainda de que falei alto e claro o suficiente para que me entendesse quando eu disse que não estamos mais em seu mundo. Você não pertence mais àquele lugar. Nunca pertenceu e nunca pertencerá.

Fiquei calada, esperando que ele dissesse algo que fizesse sentido — coisa que ele ainda não havia feito até o momento. Contudo, ele só ficou lá parado. Acho que estava esperando que eu absorvesse a informação de forma completa.

— Hum... — falei, hesitante. — Meu raciocínio é tão bom quanto a minha audição. Portanto, continue sem fazer essas pausas ridículas para ver minha reação. Explique logo tudo de uma vez para eu poder voltar para casa.

Cruzei as pernas e inclinei o corpo para frente da mesma maneira que uma criança faz quando sabe que vai ouvir uma boa história. Grigori me olhou com certa diversão.

— Sério — soei calma, mas aquele dia estava ficando cada vez mais estranho e eu já estava ficando com medo do que poderia vir. Ergui a mão direita solenemente. — Prometo que vou guardar meus comentários e surtos para o final. Palavra de escoteiro.

Grigori soltou um longo suspiro e relaxou na poltrona, saindo do ar por um momento, como se não soubesse por onde começar.

— O mundo dos mortais é acoplado a uma dimensão diferente chamada Antares. Ela foi criada pela união das energias das divindades que chamamos de Egin, Zahia e Meribhast. Estamos em um período de trégua de uma guerra que já dura séculos por motivos quase totalmente desconhecidos. Nós, que vivemos nessa dimensão, somos... diferentes — ele parou, parecendo experimentar o gosto da palavra. — Sim, somos diferentes dos Humanos. Possuímos características que eles não possuem e não poderão possuir.

Ergui um dedo e puxei ar pela boca para dizer algo, mas Grigori olhou para mim de uma maneira que me fez pensar que arrancaria meus olhos se eu dissesse algo. Fechei a boca.

— Sabemos muito pouco sobre a guerra. Foi iniciada por Zahia e Meribhast e nunca soubemos qual das duas deu o primeiro passo. Sabemos que uma queria, obviamente, derrubar a outra a qualquer custo então elas passaram a recrutar um exército de homens e mulheres e lhes deram capacidades especiais. Força, agilidade, visão e audição sobre humanas são características que todos os cidadãos de Antares possuem. Eles são chamados de Tronus. Os Guerreiros são ainda mais desenvolvidos e somos treinados para servir o nosso rei, quando necessário e solicitado.

— Espere — a palavra escapou da minha boca antes que eu pudesse contê-la. — Você disse Antares? E disse rei? Você sabia que Antares é uma estrela? E sabia que nosso país não é uma monarquia?

— Você sabia que se me interromper de novo eu mesmo quebro o seu pescoço? — Ele falava tranquilamente, seus olhos exibiam um divertimento astucioso que me impediu de duvidar de suas palavras. — Eu já sei que você ainda não acredita nisso então cale essa boca e espere o momento certo para falar.

Mesmo com uma ameaça daquelas tive vontade de mostrar-lhe o dedo do meio para e manda-lo para Antares de verdade.

— Ah, me poupe! Se quer colocar purpurina na cola que você anda cheirando, vá em frente, mas me deixe fora disso.

— Será que você pode calar a boca e escutar o que eu tenho a dizer? — Grigori pareceu finalmente ficar um pouco nervoso. Soltei um suspiro mal-humorado e deixei que continuasse. — Os Tronus são mais resistentes ao tempo do que os Humanos, chegando a viver por centenas de anos, mas os Guerreiros são treinados para controlar sua essência de tal forma que podem evitar o envelhecimento para sempre.

Devo ter feito alguma cara muito estranha ao ouvir as últimas palavras, pois Grigori acrescentou orgulhoso:

— E, sim, isso significa que aprendemos a ser imortais. Isso explica a sua célebre volta dos mortos.

— Não tão célebre assim — Kevin resmungou, mas não dei muita atenção a esse comentário.

— Você está dizendo que eu sou... — Gaguejei, piscando da mesma maneira que alguém pisca quando tem areia nos olhos. Ou quando escuta que é imortal.

— É isso aí, estou dizendo que somos Guerreiros. E que você é uma de nós.

— Mas você disse que é necessário treinamento para não morrer.

— Sim, eu disse, mas também disse que você é um caso especial.

— Mas eu nunca treinei para isso, então sabia que eu poderia morrer definitivamente.

— Sim, mas sabíamos que você era diferente e pensamos que...

— Vocês pensaram? — Pulei do sofá, apontando acusatoriamente para Kevin. — Você deixou ele me matar porque pensou que eu poderia sobreviver?

— Eu já fui devida e cruelmente punido, acredite — Kevin falou com desgosto.

— É, foi mais o menos isso — Grigori falou com normalidade. — Mas quero que saiba que eu não deixei que ele a matasse. Kevin descumpriu ordens e irá cumprir sua punição. Além do mais, você não morreu definitivamente e isso significa que estávamos certos.

— Mas como eu posso ter sobrevivido se não treinei para isso?

— A história que nos foi contada é que Egin não tinha interesse em escolher um lado. Ele apenas queria que o nosso mundo fosse bom para que pudesse ser admirado por todos, mas, conforme a guerra transcorria, mais Guerreiros morriam e mais eram recrutados novamente. O que sabemos é que Egin não podia mais suportar a destruição do seu mundo e se recusou a escolher um lado ou formar um exército, mesmo que seu poder fosse grande o suficiente para acabar com tudo. Então ele se desfez em energia e depositou em seres que conhecemos por Humanos. Egin se transformou em energia pura para criar o mundo que você conhece e todas as coisas nele. Aos poucos as histórias foram sendo mudados e os nomes foram sendo alterados e está nisso que você já conhece.

"Alguns Humanos foram... abençoados com uma quantidade de energia pura maior do que os outros, mas isso em nada afeta a vida deles, já que a vivem sem ter conhecimento de nada. Essa energia pode ser passada de geração em geração ou pode se extinguir sem ser notada. Mas é claro que tudo muda quando essa energia é combinada com a de um Guerreiro."

— O que acontece quando as energias são combinadas?

— Isso — Grigori disse e me lançou um olhar cúmplice. — É o que você vai nos mostrar.

Os Guerreiros de Antares - TréguaOnde histórias criam vida. Descubra agora