8. Asas de Borboleta.

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O detetive Robert Dylan sentava-se no degrau de entrada da casa número 64 da rua Elm, cotovelos apoiados nos joelhos e mãos pendendo por entre as coxas, olhando a jovem com o vestido escuro de noiva e a coroa de flores murchas dançar. Ela levava jeito para a coisa: rodopiava com a elegância de um cisne, desenhando arcos com os braços e, de vez em quando, deixando escapar uma gargalhada sonora. De tempos em tempos, lançava um olhar de soslaio para Bob. Estava descalça.

- Encontrou o que procurava? – ela perguntou, girando no pé direito, seu vestido escuro esvoaçando ao seu redor como asas de corvo.

Bob balançou a cabeça. Não achara o que tinha vindo procurar, mas encontrara algo. Ah, sim, encontrara mesmo. Algo que rastejara de algum canto insano da alma humana, de um lugar cheio de teias de aranha e onde a luz jamais alcançava. Lá onde vivem os pesadelos e os monstros.

- As pessoas que moram aqui... – diz Bob, olhando a moça rodopiar outra vez. – Você as conhece bem?

- Não – responde a moça. – Eu os vejo de vez em quando, mas nunca cheguei a conversar com eles. O homem costuma passear pelo bairro com aquela menininha bonitinha. Ela está sempre descalça. Me pergunto o porquê.

- Você está descalça – Bob olha para os pés da jovem, que giram e giram enquanto ela dança.

- É claro que estou descalça, seu bobo. Eu estou dançando – ela abre os braços e sorri de um jeito estranho para ele. Há algo naquela expressão que deixa Bob desconfortável. Parece... inteligente demais. – O homem está encrencado? Ele fez uma coisa feia?

Meu Deus, você não tem ideia, Bob quase deixa escapar, pensando no que acabara de ver no aposento debaixo da casa número64.

- Ele é um pedófilo? – pergunta a moça. – Aquela garota não pode ser filha dele. Eles sequer se parecem.

- Você já escutou algum som estranho vindo da casa? – diz Bob.

- Estranho? Estranho como?

- Não sei. Gritos, talvez.

O sorriso da moça se alarga, como se a ideia de alguém gritando lhe causasse prazer. Ela dá um giro e rodopia três vezes. Quando termina, a coroa de flores está torta em sua cabeleira escura. Uma pétala cai e ela a agarra no ar, segurando-a entre o indicador e o dedão.

- Não, nada de gritos – ela devolve a pétala à coroa de flores. – Quer dançar?

- Ah, não. Sou um péssimo dançarino. Minha mulher costuma dizer que eu transformo os pés dela em patê – diz Bob. – O que era aquilo que você estava falando antes?

- Não sei. Eu falo muitas coisas.

- Você ficava repetindo. Algo sobre um verme.

A moça não responde. Fita Bob por um momento com os grandes olhos azuis e volta a dançar ao som de uma música que só ela consegue ouvir. Bob suspira fundo e esfrega o rosto cansado. Se alguém lhe dissesse para matar por um cigarro, ele o faria de bom grado. Daria tudo para ter um daqueles bastões de câncer entre os dedos. Sonhava com a nicotina enchendo seus pulmões e desinflamando seu cérebro quando escutou sirenes soando ao longe. Já não era sem tempo.

A jovem de vestido negro parou de dançar e virou o rosto na direção do som.

- Seus amigos?

A Mãe de Todos Eles.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora