9. Bang.

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Quando não estava soltando pelo por todo apartamento ou cagando nos travesseiros, Napoleão se divertia brincando de morder os braços e as pernas de Peter Bowden. Aqueles malditos dentinhos afiados deixavam marcas e arranhões ardidos na pele. Certa vez, o white terrier chegara a abocanhar a bochecha esquerda de Peter. Doía.

Era impressionante como as mordidas daquela garota se pareciam com as de Napoleão.

Ela pulou sobre ele, mirando sua jugular, e Peter Bowden recuou a cabeça no último instante. Os dentes da garota se fecharam a menos de um centímetro do pescoço dele – ele ouviu com clareza o cláng! metálico que a mandíbula dela produziu ao cerrar como uma armadilha de urso. Ela deu outro bote, e dessa vez encontrou carne, cravando as presas no ombro esquerdo de Peter. A mordida seguinte foi em seu bíceps. A outra, em seu rosto, no mesmo lugar onde Napoleão o mordera na infância. Sangue quente escorreu. Bowden gritava e tentava arrancar aquela coisa de cima de si, mas ela estava presa: fincara aqueles enormes anzóis que tinha nos pés na barriga de Bowden e, sempre que ele a empurrava, as unhas mergulhavam mais fundo em suas entranhas.

Eu vou morrer aqui, ele pensou, enquanto a garota o mordia no peito, rasgando a camisa branca que ele usava e que, àquela altura, já estava toda empastada de vermelho. Vou ser morto por uma criança.

Havia uma espécie de justiça divina nisso, Bowden supunha. Ele matara crianças, e agora estava prestes a ser morto por uma. Parecia o desfecho correto. O desfecho justo. E ele aceitaria esse destino de bom grado, porque a harmonia da coisa toda quase o encantava. Exceto que a menina que mordia seus ombros, braços, peito e rosto não era uma criança.

Ela tentou abocanhar a jugular dele outra vez, e Bowden colocou a mão esquerda na frente. Os dentes da garotinha fecharam-se em seu dedo mindinho e o arrancaram fora com uma precisão quase cirúrgica. A coisa engoliu o dedinho e continuou a morder.

Não assim, a visão de Peter falhava devido à falta de sangue. Não assim.

E teria sido exatamente assim, não fosse a injeção de Sufentalina na mão de Peter Bowden. Ele não sabia se aquilo iria funcionar, mas, diabos, o que ele tinha a perder? Nada. Porra nenhuma. E, quando a menina jogou a cabeça para trás para tomar impulso antes de dar seu próximo bote, Bowden cravou a agulha na veia saliente de seu pescoço e apertou o pistão.

Soube imediatamente que tinha funcionado. O corpo da menina afrouxou, seus braços e pernas esmoreceram e, com um grito de raiva e vitória, Peter Bowden a empurrou para longe. A garotinha desabou sobre a mesa negra no centro do quarto, deslizou por sua extensão e caiu pelo outro lado, no chão, onde ficou se contorcendo e gemendo.

Não esperava por essa, hein, sua putinha?

Bowden tentou avançar para cima dela, mas suas pernas bambearam como castelos de cartas e ele despencou para trás. Bateu a nuca no armário de gavetas e caiu de bunda no chão. O mundo girou uma, duas, três vezes, ao mesmo tempo em que a realidade escurecia nas bordas, transformando-se em um túnel negro que se fechava mais e mais. Estou desmaiando, ele tentou se levantar e não conseguiu. Sentia como se a Sufentalina tivesse sido injetada em seu corpo. Merda, estou desmaiando. A menina ainda se contorcia no chão, lutando para se colocar de pé, embora a quantidade de droga que circulasse em seu pequeno sistema fosse suficiente para derrubar dois homens adultos.

Num último esforço para manter a consciência, Peter Bowden mordeu a própria língua. Arrancou um belo naco dela, sua boca encheu-se de sangue, provavelmente precisaria de pontos (isto é, se vivesse o bastante para ter que se preocupar com coisas como pontos), mas funcionou. O coice da dor empurrou para longe aquelas bordas negras que comiam seu mundo e o trouxe de volta à realidade. O problema era que a garotinha também tinha voltado: ficara de pé e cambaleava na direção de Bowden, inclinando-se para os lados e apoiando-se na mesa para não cair.

A Mãe de Todos Eles.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora