Os habitantes de Oldwheel não sabiam o quão próximos estavam da verdade quando diziam que os mortos no necrotério tinham ganhado vida e depois saído andando por aí. Às cinco horas da madrugada daquela quarta-feira – no mesmo instante em que o doutor Sadoski sentava estarrecido à mesa de seu escritório no Virginia Mason Medical Center, olhando para o raio-x da coluna de Amy Stonecastle e perguntando-se se estava diante de um milagre – o necrotério da cidade de Oldwheel se encontrava vazio. Isto é, desconsiderando os mais de dez cadáveres que lotavam as gavetas de armazenamento.
Assim, as únicas testemunhas do que realmente acontecera ali foram os mortos.
A porta da frente – que Dean Leanner, o responsável pelo lugar, realmente trancara, da mesma forma que fizera todas as noites durante os últimos dez anos – foi arrombada com um único e forte golpe que quebrou seu trinco. Um káblau! sonoro ecoou pelas paredes do necrotério vazio quando a porta chocou-se contra a parede, atirando ao chão pequenas lascas de madeira.
Depois, os cadáveres escutaram uma espécie de téctéctéc. Se Peter Bowden estivesse vivo e não deitado na mesa de autópsia daquele lugar, nu e coberto por um lençol branco, ele teria reconhecido o som de imediato: as unhas da putinha descalça arranhando o chão.
E ele estaria certo. Era mesmo Lili, caminhando devagar pelo necrotério e dirigindo-se à porta que ficava atrás do balcão da recepção. Era de lá que vinha o cheiro deles, e o olfato de Lili jamais errava. Era afiado, assim com sua visão: mesmo na escuridão das cinco da madrugada, ela movia-se com facilidade, sem se dar ao trabalho de acender as luzes – não queria que nenhum dos vizinhos visse o lugar iluminado àquela hora, isso levantaria perguntas demais – e enxergando tão bem nas trevas quanto se estivesse debaixo do sol do meio-dia.
Ela contornou o balcão da recepção e abriu a porta, revelando uma escada. Farejou, e o cheiro encheu-lhe as narinas, tão irresistível quanto uma dose de heroína para um viciado que sofria de abstinência. Lili continuou a avançar: ficou de quatro e, nessa posição, desceu os degraus que levavam à sala de autópsia. Quando chegou ao fim da escada, ela colocou-se de pé outra vez e olhou em volta.
A maior parte dos cadáveres estava guardada nas gavetas de armazenamento que ocupavam uma das paredes da sala. Havia um corpo, no entanto, deitado sobre uma das mesas de autópsia, e Lili reconheceu o cheiro dele de imediato. Soltou um grunhido de raiva e fechou os pequenos punhos com força. Era o Homem-Mau.
De quatro, movendo-se como um animal de pelos ouriçados que sentia a presença de um predador, Lili aproximou-se da mesa de autópsia. Agarrou com os dentes o lençol branco que cobria o corpo que repousava ali e puxou-o, descobrindo o cadáver do Homem-Mau. Então ficou de pé e aproximou o rosto da face esquerda dele, farejando. Era mesmo ele – ela jamais se esqueceria daquele cheiro escuro que emanava do Homem-Mau, um odor que a fazia se sentir doente, febril e com vontade de vomitar. Lili sentira-se assim apenas uma vez, quando era uma criança e não Outra Coisa. Na ocasião, sua mãe lhe dissera que ela pegara uma virose.
Mas isso tinha sido há muito, muito tempo.
Soltando mais um grunhido de desconforto, ela cobriu novamente o corpo do Homem-Mau com o lençol e voltou-se para as gavetas de armazenamento na parede. Ficou imóvel por um segundo, farejando, tentando captar um cheiro específico na colcha de retalhos formada por todos aqueles odores químicos que se misturavam – formol, álcool, as substâncias que os cadáveres eliminam no processo de decomposição.
E ali estava. Aquele cheiro tão amado. Lili seguiu-o até a gaveta da qual o odor emanava e abriu-a. Em seguida, puxou a cama de metal frio que ficava lá dentro, revelando outro corpo coberto por um lençol branco. A etiqueta pendurada no dedão direito do cadáver não constava nome algum.
Lili, que era a única conhecedora do verdadeiro nome dele, puxou o lençol branco e fitou o rosto do Homem-Bom que cuidara dela durante os últimos cem anos. Exceto que não havia mais rosto: sua cabeça tinha sido transformada em uma massa disforme de músculos e pedaços de crânio, e Lili sentiu as lágrimas queimando seus olhos. O Homem-Bom que morrera há muito tempo em um acidente de carro e que ela trouxera de volta, que a amara e que a alimentara, que a mantivera segura e a salva dos Homens-Maus como aquele deitado na mesa de autópsia, agora não possuía sequer uma bochecha para Lili beijar.
- Sinto muito – disse Lili. – Obrigada por tudo. Agora você pode descansar. – Lili beijou a mão dele. Então empurrou a cama de metal de volta para o interior frio da parede e fechou a gaveta. Cláng!
Depois, ela enxugou as lágrimas e voltou ao trabalho. Era o que ele desejaria.
Abriu a gaveta de armazenamento mais próxima, puxou a cama de metal e descobriu o corpo. Viu-se olhando para o rosto de uma mulher tão gorda que suas bochechas derretiam em dobras. Lili leu a etiqueta no dedão do pé direito: Helga Miller. Ela lembrava-se da velha sentada ao lado dela na recepção do Hospital Geral, com um cilindro de oxigênio próximo aos pés.
Lili segurou o queixo de Helga Miller, abriu-lhe a boca e cuspiu em sua garganta uma única e leitosa gota. Então se colocou de lado e esperou.
Um minuto se passou. Dois minutos. Três... E a mão direita de Helga Miller abriu e fechou em um rápido espasmo. Lili continuou esperando. Outro minuto morreu, e outro, e mais outro... Dessa vez, os dedos esquerdos do cadáver tamborilaram no metal frio da cama e seus olhos se abriram: giraram descontrolados nas órbitas, vesgos e focalizando todos os lados da sala ao mesmo tempo. A velha respirou fundo, seu peito inflou-se e ela começou a tossir.
Lili tocou de leve o ombro dela.
- Vá com calma – disse Lili. Os olhos de Helga Miller pararam de girar como uma bússola quebrada e focalizaram o rosto da garotinha. – Você vai se sentir um pouco estranha no começo, mas isso passa.
- Quem... – tosse, tosse, tosse. – Quem é...
- Quem sou eu? – disse Lili. – Sou sua Mãe.
E, com essas palavras, Lili afastou-se de Helga Miller e abriu a gaveta seguinte. Não podia perder tempo.
Havia muito trabalho a ser feito.
***
Nota do autor.
Quando comecei a trabalhar em "A Mãe de Todos Eles", minha intenção era escrever um conto. Mas a coisa simplesmente saiu do controle e eu terminei com quase 200 páginas de Word em mãos. Adoro isso – na verdade, acho que é o que eu mais amo na escrita. Esse momento em que tudo começa a crescer, os personagens ganham vida e você deixa de ser um escritor e se torna apenas um meio de condução para a história: seu trabalho é visualizá-la, escutar o que ela tem a dizer e colocá-la no papel da melhor forma possível.
Escrevi todos os dias durante o último mês – quando trabalho em uma história, escrevo de segunda a domingo, no mínimo mil e quinhentas palavras por vez – e o resultado está aqui. Não sei se ficou bom ou ruim, mas juro que fiz o melhor que pude.
A ideia de transformar as investigações do detetive Robert Dylan em uma série continua firme e forte em minha mente. Embora, no momento, eu vá me dedicar a outra coisa. E, com "outra coisa", eu quero dizer que preciso revisar e alterar 570 páginas de um romance que escrevi no ano passado. Não preciso apontar o óbvio, certo? Isso vai tomar um pouco de tempo. O que não significa que vou sumir do Wattpad – descobri histórias incríveis por aqui, autores sensacionais, e não vou pedir a conta tão cedo.
Bom, é isso. Obrigado a você por ler a minha história. Cada voto, cada comentário e cada elogio me impulsionaram e me deram forças. Espero não ter decepcionado ninguém. Sei que algumas perguntas ficaram sem respostas, mas prometo que todas as dúvidas serão sanadas. Até o nosso próximo encontro, leitor, cuide da sua saúde, persiga seus sonhos e seja bom com os outros – geralmente, a felicidade só precisa disso para acontecer.
Ah, uma última coisa: se você, por acaso, encontrar uma menina estranha andando descalça por aí, eu te aconselho a manter distância. Garotinhas têm dentes.
E, às vezes, elas mordem.
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A Mãe de Todos Eles.
Gizem / Gerilim"Querido Robert: Espero que meu presente chegue em bom estado às suas mãos. E peço desculpas pela demora em lhe dar os parabéns. Sei muito bem que seu aniversário foi na semana passada - é só que eu estive ocupado preparando esta surpresa especialm...
