4. A Menina Descalça.

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O doutor Peter Bowden fez uma pausa para o almoço às duas da tarde daquela terça-feira. Quando a última paciente do primeiro turno – uma jovem de 21 anos com o rosto sempre tomado por um sorriso de dentes brancos que só não era maior do que a sua barriga de oito meses – saiu pela porta do escritório, Bowden levantou-se da cadeira de couro, pendurou seu jaleco no encosto e espreguiçou-se. As articulações estressadas de seu pescoço e costas estalaram com um creckcreckcreck! sonoro. O barulho lembrou o som que o corpo do menino Quentin Hill produziu enquanto Bowden o dobrava, torcia e depois dobrava de novo, até reduzi-lo a um tamanho pequeno suficiente para que coubesse na caixa de papelão.

Bowden guardava suas anotações na gaveta quando o celular apitou em seu bolso - cling! Anna. Perguntando da porra do dinheiro. Ele pegou o aparelho e sorriu ao ver o que a tela mostrava: Ursinha. Ele inseriu o código de desbloqueio para ler a mensagem.

Tio James me levou para conhecer o Museu do Louvre. Pensei que a Mona Lisa fosse maior!!!

Três pontos de exclamação. Bowden pôde ouvir com clareza a voz da filha subir vários agudos, da forma como fazia quando Cara estava impressionada ou com raiva de alguma coisa – e fodam-se os pontos finais. O trabalho deles é encerrar, e ninguém gosta de encerramentos.

Bowden respondeu:

Sinto muito que a Mona Lisa tenha decepcionado você, querida. Como está Paris? Tudo bem por aí?

Cling!

Paris é legal. Mas gostaria que você estivesse aqui :(

O sorriso de Bowden aumentou.

Eu também gostaria de estar aí, Ursinha. Mas semana que vem eu vejo você. Estava pensando: que tal uma maratona de Star Wars?

Cling!

Estou dentro!!!

Bowden digitou uma última mensagem – e eu estou com saudades, te amo – e caminhava para fora de seu escritório quando ouviu sirenes berrando. O barulho era algo raro em Oldwheel: a cidade dificilmente testemunhava acidentes que demandassem a ajuda da Emergência. Ele girou nos calcanhares e olhou o estacionamento do hospital pela janela atrás de sua mesa, e viu o exato momento em que a ambulância entrou, cantando pneus e parando de qualquer jeito na vaga. Meu Deus, o pessoal ali estava mesmo com pressa.

As portas traseiras da ambulância se abriram e dois paramédicos saltaram com uma maca, onde um homem jazia coberto até o pescoço por um lençol branco e com um colar cervical no pescoço. Bowden teve um rápido vislumbre do rosto dele, o suficiente para ver que metade da cabeça do sujeito se encontrava enrolada em ataduras empastadas de vermelho-sangue.

Então os paramédicos o levaram e ele desapareceu de vista, engolido em sua maca pelas portas automáticas do hospital.

- Bom, tá aí uma coisa que não se vê todo dia por aqui – disse Bowden para o escritório vazio.

Havia mais alguém na ambulância. Uma jovem magricela, que usava uma camiseta do ACDC e uma calça jeans rasgada nos joelhos, pulou da traseira, de mãos dadas com uma garotinha enfiada em um vestido rosa. Elas ficaram paradas lado a lado no estacionamento, a mais velha virando o rosto para a esquerda e para a direita, parecendo não ter certeza de como prosseguir. Ela se agachou, sussurrou alguma coisa para a menina e as duas entraram no hospital.

Bowden mordeu o lábio inferior, tamborilou com o pé direito no chão e saiu do escritório, trancando a porta atrás de si. Seu celular tocou novamente – cling! – mas, dessa vez, ele não escutou. No momento, Peter Bowden só tinha ouvidos para a voz alta dentro da sua cabeça.

A Mãe de Todos Eles.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora