De volta à realidade.

91 6 0
                                        

2016 - BRA

Já se faz um longo tempo desde o ocorrido, consigo me lembrar claramente, ser abandonada no dia do casamento é pra lá de traumatizante. Tantas coisas mudaram de séculos pra cá, inclusive eu, minha mudança foi mais interior do que exterior, minha aparência não mudou, não vejo rugas, nada que pudesse demonstrar o quão velha eu estou, está é um dos principais efeitos colaterais da imortalidade... Ah papai, devo agradece-lo ou odia-lo? De qualquer forma, o ódio é inevitável, aliás, isso é a única coisa que me restou, todo sentimento bom papai conseguiu destruir, quase tudo... Com o tempo você consegue perceber que ainda vale a pena sentir e que até mesmo a dor se torna algo bom.

Acordo ao som do despertador: 4:00 am. Uma das desvantagens de ser comissária de bordo é isso: acordar cedo. Sempre odiei isso, porém não posso reclamar muito, algumas vezes dormir é um privilégio de poucas entre nós, pior que acordar cedo e as vezes nem dormir direito, não se alimentar corretamente e outras ficar com fome, é ter que lidar com passageiros, desde criança minha me dizia que conviver com ser humano é difícil, sabíamos disso, o exemplo pior sempre foi papai e seus seguidores ou "capangas" (Homens que trabalhavam para papai em troca de dinheiro e status),sempre foi um homem cheio de poder, assim digamos. Todos de fora o chamavam de "Mrs. Walter", mamãe era a única que o chamava pelo nome -Albert-, eu e Sophy sempre o chamamos de papai, as vezes quando eu fazia birra chamava pelo nome e ele ficava furioso, para ele chama-lo pelo nome ofendia seu ego, feria sua honra, coisas de homens daquela época...  hoje em dia é mais banal o jeito que ofendemos a honra de um homem.
Volto dos meus pensamentos e sonolência quando percebo que o despertador ainda está a tocar.

- Desliga esse despertador ! -diz Francy mais sonolenta do que eu.

Estico meu braço, pego meu celular e desligo.

- HORA DE ACORDAR!- digo alto enquanto jogo meu travesseiro em Francy.

- Sai daqui desgraçada. - ela joga o travesseiro de volta.

- Da próxima deixo você aí pra perder a hora, otária.

Viro-me, saio pela porta do quarto em direção ao banheiro.
Francyne Price é uma das minhas amigas, seguido de Camilla e Sane. Francy é um pouco mais alta que eu, tem cabelos abaixo dos ombros e pretos, seus olhos são castanhos e tem uma beleza natural, tem traços delicados, é a mais madura entre nós quatro. Milla é a mais alta, tem cabelos pretos e vivem amarrado, é a analítica, ela percebe as coisas antes de todas nós e sempre diz "eu avisei",parece fria, porém, é a mais sentimental também. Sane é menor que eu, tem cabelos em cima dos ombros e castanho, olhos (também) castanhos e pele clara, tem sardas e usa óculos, ela é mais quieta, introvertida, fica em seus pensamentos e é lerda assim como eu. Moramos todas juntas em um apartamento não tão pequeno em São Paulo, tem 3 quartos, Francy aceitou dividir um comigo, aliás, só fico em casa quando volto para dormir.

Entro no banheiro com cuidado, o quarto da Milla é logo ao lado, eu não gostaria de acorda-la, ser xingada à essa hora da manhã não é um bom jeito de começar o dia. Começo a me despir em frente ao espelho que me dá uma boa visão até minha cintura,  tiro meu pijama e as marcas logo ficam visíveis, no meu joelho, barriga... se parecem com marcas de nascença como aquelas que dizem que trouxemos de vida passada, mas ainda estou no mesmo corpo, isso são marcas de épocas passadas.
Percebo que estou perdida em meus pensamentos novamente, vou até o box do banheiro e ligo o chuveiro, uma das melhores sensações que me traz é o banho quente, a água em si me traz tranquilidade, é o momento mais calmo e de conexão espiritual comigo mesma.

Tomo um banho um pouco demorado, percebo que fiquei muito tempo de baixo do chuveiro ao escutar as batidas de Francy na porta.

- é pra hoje ou pra amanhã ? - Ela diz - Não acabe com a água do mundo, garota, ANDA !

- Estou saindo, tenha calma.
Olho para o relógio de parede -sim, temos relógio no banheiro, ideia da Sane- e vejo que fiquei 20 minutos.

-ANDA VAL, JÁ SÃO 4:30, PRECISO CHEGAR À TEMPO PARA A PROVA !!! - Grita Francy do outro lado da porta.

Respiro fundo e imediatamente desligo o chuveiro, pego a toalha, me enxugo e a enrolo em volta do meu corpo, abro a porta e Francy me olha seriamente com os braços cruzados... Faço bico
- Desculpe Francy - Dou um beijo nela, ela me empurrar e limpa a bochecha, entra no banheiro e tranca a porta, eu dou risada.
Viro-me em direção ao meu quarto que é logo em frente ao banheiro, vejo Milla sair de seu quarto com uma cara horrível de ressaca.

- Boooom dia Camz, acordada logo cedo, que dia lindo não é mesmo ?! -Digo sorrindo tirando sarro de sua cara carrancuda sofredora, os gritos de Francy deve ter acorda-la, ou ela nem deve ter dormido. Assim deduzo.

- Dia.- Ela diz e passa reto por mim quase sem olhar para minha cara.

Vejo que alguém não teve uma boa noite ontem. Penso comigo.

Milla tem alguns problemas com bebidas as vezes, não é viciada mas não sabe se controlar, é forte então precisa de várias doses para chegar à essa cara de ressecada de manhã. Apesar disso, ela é uma das melhores pessoas que conheci em décadas.
Entro no quarto, o lado de Francy é o mais arrumado, sinto decepção de mim mesma, dou risada sozinha por isso. Abro o guarda-roupa e pego meu uniforme cor azul marinho, essa sempre foi e sempre será minha cor preferida, fico feliz pelo uniforme ser dessa mesma cor, pego meu salto alto preto da Vizzano, devo ter por volta de 5 ou mais do mesmo sapato guardado. Seco meus cabelos, eu costumava ter cachos, lindos cachos macio e brilhoso, na altura da cintura,  hoje meu cabelo está alisado, em cima dos ombros com algumas mechas loiras, tentando me adaptar aos padrões de beleza dessa geração. Uso o espelho da porta do guarda roupa para amarrar duas mechas do meu cabelo na parte de trás minha da cabeça e coloco minha boina de uniforme. A boina sempre foi e sempre será a parte que estraga o uniforme, ao meu ver. Pego um par de brincos pequenos de pérola e coloco, passo uma maquiagem básica para minha pele morena, ousando nas sobrancelhas para realçar meu olhar e principalmente caprichando no batom cor vinho para meus lábios.

Estou pronta.

Olho para o relógio, estou na hora certa - 5:10 am - Saio do quarto e vejo Francy de roupão na sala com seu danone matinal e Milla com a cara fechada jogada no sofá de olhos na TV.

- Meninas, estou indo. -Digo, passo por trás do sofá e beijo a cabeça de Milla, a mesma não moveu um músculo sequer, beijei a testa de Francy. -  Quando Sane acordar digam à ela que o último pedaço de pizza é meu. 

Saio pela porta.

Aperto o botão do elevador, enquanto espero fui checar meu celular "2 mensagens de Nick no Whatsapp"
"Espero não acorda-la com essa mensagem, preciso conversar com você assim que possível" Nick 1:20 am
"Tina... Lembra aquele número que lhe mandou aquela mensagem estranha semana passada? Ele pegou a Sane" ...

CaídosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora