Paralisia

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Aquilo tudo era um completo caos, pessoas corriam de lado a lado, sirenes soavam aos meus ouvidos. Os meus próprios pensamentos me reprimiam em um eterno replay, lembrando de cada momento, cada dor e cada agonia que sofri até aqui, todos que estavam comigo e os que não estavam. Pensamentos iam e vinham, lembrei do trote que fizeram comigo. Será que estava sendo dramático demais? Era tão agonizante, por que todos tinham que passar por todo esse sofrimento? Crescer é sofrer? Eu nunca quis nada demais, apenas quis ser feliz e encontrar alguém me faça sentir isso. Tudo isso é injusto, a vida é tão injusta.
Cada passo era como se eu tomasse um tiro, eu conseguia ver a sala, mas será que eu deveria adentrar ali? Será que tudo seria melhor se eu não estivesse aqui? Não posso prosseguir com esses pensamentos, além de tudo isso, ela é a minha mãe. O choro começa a escorrer pelo meu rosto, nunca fui capaz de realizar nada direito, eu realmente devo ser um péssimo filho, por que eu seria merecedor dela?
Sinto uma mão me dar apoio segurando o meu ombro, era firme, calorosa e me dava um pouco de conforto, não conseguia olhar para trás, mas tive a sensação que já a havia sentido antes, quando nesse momento me veio um surto temporal, era como se todo o meu passado realmente viesse à tona, rostos que eu não lembrava mais não eram apenas meros borrões, eram lembranças simples mas bem afetivas, como se tudo tivesse ocorrido a não menos que singelos segundos.

....


  Era uma manhã calorosa em minhas férias de verão, mamãe ainda morava junto com o papai, e eu ainda era crente que possuía uma família perfeita, como se isso ainda fosse possível nos tempos de hoje. Nessa época, todo verão alugávamos uma casa em uma praia meio isolada, era ótimo ter uma areia branquinha e totalmente vazia para poder se divertir, aquela água azul cristalina, era como uma calmaria, mas naquela noite tudo foi diferente... tudo teve o início para o seu término, toda aquela alegria de um menino que achava que tinha tudo de braços abertos.
Estávamos voltando das nossas férias de verão, a estrada estava muito escura, e estava tendo um temporal, eu não conseguia dormir o carro, mamãe e papai discutirão como eu nunca havia visto antes, papai virou para mim, rapidamente, colocou a mão sobre a minha cabeça e disse: "Apenas feche os olhos, relaxe e durma, ainda teremos uma longa viagem pela frente". Apenas acenei com a cabeça, ele virou pela frente e continuou a dirigir, nesse momento lembro de ter pego no sono, mas não lembro da discussão ter acabado.
Lembro que um tempo depois eu abri os olhos, eles ainda estavam discutindo, mas naquele momento foi diferente, de repente apareceram duas luzes bem fortes, além de uma buzina estrondosa, lembro de papai ficar totalmente espantado, tentou jogar o nosso carro para o acostamento, mas o caminhão ainda conseguiu acertar o lado dele no carro, após isso lembro que desmaiei, quando acordei estava saindo da ambulância com o papai e mamãe, mamãe estava totalmente bem, mas papai estava gravemente ferido.
Toda aquela cena caótica, era como se retornasse e combinasse com a do presente, aquela correria, choros, médicos correndo de um lado a outro, aquele barulho de sirene. Lembro que eu e mamãe saímos juntos do hospital, mas sem o papai, mais pelo que me recordo ele não havia chegado a estar em óbito, mamãe estava quando saímos ao lado de um homem de terno, que eu supus atualmente que era o seu advogado, e antes de sairmos do hospital lembro que mamãe largou um papel na cabeceira da cômoda ao lado do papai.


....



Fui puxado novamente para o presente, essa mão, lembro de seu conforto, lembro de tudo agora, e garanto que também lembro de quem é a pessoa que está com as mãos ao meu ombro, como pude me esquecer dela?
Viro para trás, ao olhá-lo sinto uma paralisia, nunca me senti assim, nunca me senti tão triste é tão feliz ao mesmo tempo ao olhar esse rosto, apenas sinto as minhas lágrimas escorrerem por todo o meu rosto, minha visão ficou totalmente embaçada, lembro que ele me abraçou, como pude me esquecer desse abraço?
Minha visão começa a voltar ao normal, Jen está correndo, entrando pela porta do hospital, ao me ver ela fica paralisada e não se atreve a dar um passo em minha direção, era como se ela estivesse em choque, e até agora eu não consegui olhá-lo no rosto.
Só o que me vem à cabeça é, por que ele? Por que agora? O que ele faz aqui? O que esteve fazendo esse tempo todo? Como ele soube disso tudo? Será que a mamãe está ciente?
Nesse momento vejo a maca da mamãe ser transportada, corro freneticamente atrás dela, consigo segurar as pontas de seu dedo, e eles estavam tão gélidos, as lágrimas ainda escorriam de meus olhos. Nesse momento o médico para com a maca, e apenas me conta que ela está com um aneurisma, e se não entrarem em cirurgia agora, poderia ser seu fim, apenas confirmei com a cabeça e o acompanhei até a a sala da UTI, aonde ele disse que eu não poderia passar.
Nesse momento Jen é aquele homem vem andando lentamente em minha direção, não sabia qual reação expressava, ódio? Raiva? Tristeza? Ou alegria por ele estar aqui? Só consegui soltar poucas míseras palavras.
— Pai? O que faz aqui?....

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⏰ Última atualização: Dec 17, 2016 ⏰

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