Imagens do Passado

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            Sentia minhas mãos geladas enquanto segurava aquele caderno. Fiz um esforço descomunal para conseguir movimentar meus dedos. Não sabia se me sentia paralisado pelo frio, pelo medo ou por uma reação involuntária ordenada pela minha consciência.

Parecia que meu próprio corpo se recusava a folhear aquelas páginas. E como uma forma de sanar esse medo eu simplesmente soltei o caderno sobre a mesa. Ele caiu com uma pancada seca e se abriu praticamente ao meio.

Naquele momento ele esbanjou uma beleza peculiar. Parecia uma flor desabrochando sobre a mesa. No entanto, as belas pétalas eram na realidade folhas de papel secas, enrijecidas. Queria desviar os olhos. Mas não consegui.

Meu velho caderno de desenho. Era como meu amigo imaginário. Sempre estava comigo. Em todos os momentos me fazia companhia. Muitas vezes foi o único amigo que eu tive e pude contar.

Como se ele fosse vivo, em algum tipo de compaixão, ele me mostrou uma lembrança agradável. A página amarelada tinha o desenho de uma arvore seca, retorcida. O aspecto sinistro da planta nunca me assustou.

A árvore de pequeno porte e de aparência frágil fez parte da minha infância. Ela ficava no jardim da casa de campo da minha família, entre varias outras que enfeitavam o lugar. Para uma criança de seis ou sete anos que escalava seus galhos ela aparentava ser muito maior do que realmente era. Mas isso não importava. A sensação de ser aparado pelos seus galhos era reconfortante para um garoto um tanto quanto solitário.

Sempre fui uma criança um pouco reclusa. Não me importava em ficar sozinho, longe de outras crianças. Na realidade eu preferia ficar sozinho. Gostava de brincar em silêncio. Observar os adultos e tudo que estava a minha volta. E principalmente, amava desenhar e rabiscar.

Não sei se por amor materno ou simplesmente para salvar as paredes brancas da casa; minha mãe me presenteou com um caderno e um punhado de lápis de colorir. Me lembro com uma riqueza impressionante de detalhes. Eu brincava sozinho, como sempre, e ela se aproximou. Trazia nas mãos um belo caderno de capa vermelha e uma caixa de lápis.

Para muitos pode parecer um presente simples. Mas por algum motivo aquilo era muito importante para mim. Tão importante que aquele objeto me acompanharia ainda por muitas situações de minha vida. Para alguém que não conseguia reagir aos ataques do mundo, aquela era a minha espada e meu escudo.

Eu passei a desenhar ali as coisas que eram importantes para mim. Quando ficava triste com alguma coisa e não conseguia me expressar, era com aquele pedaço de papel que eu desabafava. Tudo que era relevante na minha vida se tornava um desenho ou uma frase solta nas páginas daquele caderno vermelho.

Eu não me lembro de uma época em que não tenha presenciado conflitos. Então eu garanto que mesmo sendo uma criança eu tinha muito o que expressar. Não sei se me tornei fechado pelas coisas que presenciei desde muito novo. Mas sei que isso contribuiu muito para chegar onde estou hoje.

Fui criado pela minha mãe. Ela era uma mulher dura. Não como um general, mas uma dureza de quem já sofreu na vida e não queria que a sua cria passasse pelos mesmos problemas. Ela engravidou muito jovem e não teve o apoio de meu pai. Parece que ele estava mais preocupado em achar outras jovens para mais uma noite de amor, do que se tornar chefe de família. Minha mae tinha consciência de que não havia sido a primeira na vida dele e com certeza não seria a ultima.

Quando íamos para a casa de campo da família, eu passava horas sentado nos galhos daquela árvore retorcida. Entre conversas com amigos imaginários e pausas para observar os pássaros e insetos eu pesava em todos os momentos e oportunidades de que privei minha mãe pelo simples fato de eu existir. Tambem vislumbrava um futuro onde queria ser alguém melhor do que meu pai foi e poder cuidar de todos aqueles que eu amava. Minha imaginação de criança deveria criar situações fictícias alegres e não ficar delirando com preocupações adultas. Relembrando esses momentos eu posso ver que sempre fui um garoto peculiar.

Entre Lobos e CordeirosOnde histórias criam vida. Descubra agora