Uma duvida inevitável veio a mente de Samuel:
- Eu me lembro perfeitamente de como vocês eram unidos. Era visível como os dois se apoiavam e se nutriam. Como tudo isso acabou tao repentinamente?
Minhas mãos suavam e eu sentia minha cabeça pesar. Sentia meus olhos inchados e não sabia se era pelo choro entrecortado da noite ou pela pressão que emanava do interior do meu crânio. Tantas lembranças ruins me embrulhavam o estomago. Colocar todo esse sentimento ruim em palavras era como reviver todas as cenas novamente. Sentiria na pele outra vez as dores que já me castigaram antes.
- As coisas começaram a ficar ruins quando Diana decidiu que precisávamos de ajuda especializada, mesmo sem termos nenhum problema no nosso relacionamento.
Não sei se por castigo do destino, por essência ou por marcas de vida, eu tinha um grande defeito de personalidade que não conseguia controlar. Sempre fui muito rancoroso. Isso fazia mau à mim e às pessoas a minha volta, mas era incontrolável.
Um tio bem próximo de Diana era um líder religioso de prestigio dentro da comunidade e havia se tornado terapeuta. Talvez como forma de incentivar o tio, ela teve a inusitada ideia de participar das sessões de terapia realizadas num consultório no centro da cidade. O homem havia se especializado em terapia para casais. Penso que a atitude de Diana era meramente por apoio familiar já que não tínhamos nenhum traço ou sombra de problemas conjugais. Tendo essa ideia em mente, depois de relutar um pouco, aceitei a proposta.
O grande problema nessa situação era minha personalidade. Eu não me sentia bem em conversar com absolutamente ninguém que não fosse minha esposa. Diana era a única com quem eu poderia desabafar sem medo. Eu sabia que tudo que eu contasse para ela ficaria somente entre nós. Éramos cumplices, amantes e amigos. Contar sobre nosso relacionamento para outra pessoa era extremamente desconfortante para mim.
O tio de Diana era um homem sisudo, carregava um semblante de superioridade que me causava náuseas, como se todos os livros que ele leu tivessem o tornado melhor do que as outras pessoas, embora sua arrogância o tornasse o menor dos homens. Sobre seus sapatos de couro preto bem lustrado e seu terno bem passado da mesma cor ele ministrava sessões de ajuda para casais e dava conselhos amorosos para jovens.
Começamos a frequentar o consultório com a ideia de sermos "cobaias". Só nos abriríamos o suficiente para ajudar o recém formado psicólogo a treinar seus métodos de aconselhamento. Eu encararia como invasão qualquer conselho a mais ou tentativa de mudar nosso modo de agir e pensar. Sendo assim, me encontrava com Diana no consultório e após a sessão de aproximadamente uma hora, eu ia para o trabalho e ela voltava para casa. Isso era o que eu pensava ate ser surpreendido com uma não muito agradável visita do tio de Diana em meu escritório.
O homem entrou na sala após uma quase inaudível batida na porta. Sem perder a carranca arrogante ele disse que seria bom ter uma conversa em particular comigo, segundo ele isso faria bem tanto a mim quanto á Diana. Para minha surpresa o motivo da visita era meu casamento. Não pretendo entrar nos desgastantes detalhes da conversa, mas posso enfatizar que fui pressionado e acusado sem nem mesmo entender bem a situação que se formou à minha frente.
Eu estava perplexo. O homem vomitava palavras que me colocavam em uma posição de marido ruim. Ele sabia de coisas que eu tinha certeza que nunca havia contado a ele. E falava de pequenas falhas como se fossem graves pecados dignos de pena de morte. Ele esclareceu que após as sessões quando Diana deveria voltar para casa, ela ainda se mantinha no consultório relatando fatos sobre nosso casamento. Não que houvesse muita coisa para contar ou segredos ferozes, mas o que me entristeceu foi a falta de companheirismo.
Eu não consegui dar resposta alguma àquele homem. Depois que ele se retirou eu nem mesmo conseguia trabalhar tamanha minha decepção. Fui para casa e da mesma forma como a verdade foi despejada sobre mim eu cobri Diana com palavras duras. No fundo eu entendia que ela não havia feito aquilo por mau, mas meu rancor era muito grande para admitir isso. Eu me senti traído. Eu confiei nela e como um golpe pelas costas ela contou nossa intimidade para outra pessoa. Uma situação que não deveria ser tida como grave, se tornou um revolta imensa no meu coração. Tudo que eu tinha era aquela mulher e ela havia me "trocado".
A partir daquele dia as coisas nunca mais foram como antes. Por culpa minha sim, pobre homem rancoroso. O rancor corrói por dentro e causa mágoa. E com a minha mágoa eu causei dor a Diana também. Nós começamos a nos afastar. Eu já não conseguia conversar com ela sobre assunto algum e o silencio começou a tomar conta da nossa relação. Eu perdi a confiança nela. Diana não me visitava mais na empresa e não me ajudava com o trabalho, só nos víamos durante a noite e mesmo assim trocávamos poucas palavras. O clima era sempre frio ao nosso redor. E as coisas piorariam ainda mais.
Com o crescimento da empresa e a recente falta de apoio de Diana eu estava sentindo que estava começando a perder o controle sobre a empresa. As coisas ainda iam bem, mas eu me sentia mais sobrecarregado do que o normal. Precisava de alguém que me ajudasse no fluxo diário do escritório e em trabalhos externos para poupar meu tempo. Foi então que decidi contratar um funcionário para me auxiliar nessa área.
Depois de declarar que havia uma vaga de emprego em aberto, todos os dias quando chegava no escritório eu encontrava três ou quatro pessoas esperando para uma entrevista. Nos primeiros dias apareceram jovens de boa aparência, mas que não pareciam ter a agilidade suficiente para aguentar a rotina da empresa. Surgiram homens engravatados e robustos, mas que tinham pouca obstinação. E algumas mulheres bastante apáticas que pareciam não se encaixar em nenhum tipo de emprego. Durante o dia chegavam mais candidatos que eram prontamente atendidos por mim, mas que me causavam certa decepção quando entravam em minha sala.
Foi então que Kira apareceu. Um dos meus funcionários entrou no escritório trazendo o curriculum da moça nas mãos e dizendo que ela estava na entrada do galpão aguardando. Meus olhos correram rapidamente a folha de papel branco e pedi que ela fosse chamada. Depois de tantas pessoas distintas sentarem à frente da minha mesa eu já não me sentia muito esperançoso, mesmo assim decidi ser cordial com a garota.
Kira era tao incomum quanto seu nome. Era magra, e parecia ser alta embora na realidade não fosse. Acho que as longas pernas envoltas num jeans escuro ajudavam nessa ilusão de óptica. Seu corpo se acomodou levemente na cadeira à minha frente. Tinha os cabelos lisos e longos presos em um rabo de cavalo na parte posterior da cabeça e carregava um sorriso extremamente sincero no rosto.
Ela falava com clareza e se mostrava muito ativa. Respondia à todas minhas perguntas de prontidão e com simpatia. Simpatia essa que saltava de seu olhar. Tinha os olhos marcantes e de um brilho profundo. Seus traços à primeira vista pareciam comuns, mas quando se apreciava os detalhes, se podia notar uma descendência oriental um pouco distante, com os seus olhos que praticamente se fechavam a cada sorriso e seu jeito calmo de agir. Kira era uma mulher rara.
Claro que minha avaliação não era meramente física. Precisava de alguém que me ajudasse com o funcionamento do escritório. De todos os entrevistados, Kira se mostrou a mais qualificada, portanto decidi que ela trabalharia comigo por um período e caso se saísse bem seria contratada definitivamente.
No dia seguinte a sua contratação, quando cheguei ao trabalho, Kira estava em pé diante de minha mesa e olhava para a porta como se estivesse esperando minha chegada. O local estava surpreendentemente organizado. O material de escritório que insistia em se espalhar por toda a parte, estava separado e dividido por funcionalidade, assim como as pilhas de papeis sobre minha mesa. Fui recebido com um animado "Bom dia!" pela mulher perfumada e bem arrumada que se mostrava pronta para o trabalho.
Kira se superava a cada dia. Em poucos dias ela fez com que todo o trabalho fluísse sem problemas. Obviamente eu a contratei efetivamente. Depois de alguns meses eu já não precisava nem mesmo dizer à Kira suas funções, por conta própria ela cuidava do trabalho com destreza. Kira passou ate mesmo a ter cuidados comigo, como trazer meu café logo pela manha e se livrar de pequenos aborrecimentos antes que chegassem aos meus ouvidos. Kira foi, com toda a certeza, uma grande aquisição para a empresa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Entre Lobos e Cordeiros
RomanceEm um inesperado reencontro com um velho amigo, Gabriel recebe um presente que vai fazê-lo reviver cenas de um passado que ele luta para esquecer. Entre as lembranças de intrigas, discussões e desejos latentes surgem questionamentos pertinentes à to...
