Nasce um amor

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       Eu estava afundado em um confortável sofá, na companhia de um ótimo amigo, no interior da belíssima Itália, mas não conseguia distinguir se me sentia feliz ou triste. As coisas que preenchiam aquele velho caderno me traziam tristezas sim, mas também me lembravam de aprendizados que eu nunca deveria ter esquecido. Todas as pessoas que passaram por minha vida tiveram sua importância. Talvez fosse essa a intenção de Samuel desde o inicio; me mostrar que nosso passado sempre estará lá, não importa quão ruim ele foi.

Descrevi tudo que pude á respeito de Helena, contei sobre Rafaela e Camila e também sobre a breve mas rica conversa que tive com Samanta. Acho que aquilo seria suficiente, mas claramente Samuel queria mais. Com o caderno em mãos ele separou as páginas de forma certeira. Já sabia o que queria achar e sabia onde se encontrava. Era evidente que já havia folheado aquele caderno diversas vezes antes de nos encontrarmos. Quando achou o desenho que buscava, ele interrompeu os movimentos por um instante. Provavelmente pensava em como poderia levantar questões sobre aquele assunto.

Ele ergueu o olhar e me encarou. Lançou o caderno sobre meu colo e disse com um ar nostálgico:

- Me lembro do dia de seu casamento como se tivesse sido ontem...

A dúvida sobre minhas emoções que me dominava já não existia mais. Agora tinha plena certeza que tudo que sentia era uma profunda tristeza e amargura. O desenho no caderno sobre minhas pernas era de Diana. Meu coração se apertou e disparou, achei que fosse saltar pela boca. Quanta mágoa aquele desenho me trazia. Não pelo que eu tenha sofrido, mas pelo que eu causei.

Diana era uma mulher extremamente bonita e tinha uma beleza interna tão grande quanto a beleza externa. A conheci de uma forma bastante inusitada. Quase como uma cena ensaia em um filme romântico, Diana literalmente me acertou em cheio. Eu saia da empresa levando nas mãos uma pilha de documentos que precisavam ser assinados e carimbados. Como sempre minha atenção estava voltada totalmente para o trabalho e os movimentos do meu corpo eram praticamente automáticos. Diana apareceu como um raio e mostrou logo de cara toda sua falta de coordenação motora. Me acertou com a bicicleta que conduzia e ambos rodopiamos sem controle em direção ao asfalto.

Os documentos que carregava subiram aos céus e caíram como chuva por toda parte. Diana rolou quase um metro longe de sua bicicleta e eu cai com as costas no chão. Sem entender bem o que estava acontecendo, meu impulso foi me levantar de súbito e enfurecido, pronto para cuspir xingamentos e palavrões para a pessoa descuidada que não conseguiu desviar sua rota. Quando vi Diana se levantando em meio aos papéis, toda desalinhada pela queda, meu ponto de vista mudou. Ela estampava uma inocência tão sublime que não tive coragem de intimidá-la. A veia que saltara em minha testa desapareceu e toda tensão de meus músculos desapareceu.

Diana não era alta mas tinha o corpo longilíneo, com proporções bem distribuídas. Os cabelos eram longos, castanhos e levemente cacheados. Tinha pequenos detalhes no rosto que me chamavam a atenção mesmo sendo discretos. O nariz era levemente arrebitado, o que dava um toque inocente às suas feições. Os cílios eram longos e molduravam belos olhos cor de avelã que pareciam esverdeados com o toque da luz. Os lábios fartos eram bem desenhados e quase distraiam minha atenção.

Enquanto eu detalhava Diana mentalmente, ela teve tempo de se levantar e se recompor da queda. Se desculpou por diversas vezes seguidas como se não soube o que dizer. Levantou sua bicicleta apressadamente e desapareceu na esquina seguinte tão rápido quanto apareceu. Ela parecia estar muito atrasada para um compromisso de extrema importância. Mesmo atônito eu relevei toda a situação. Me abaixei e comecei a recolher os papéis que ficaram espalhados. Em uma avaliação rápida o pequeno acidente pareceu não causar danos, tinha sido apenas um susto.

Entre Lobos e CordeirosOnde histórias criam vida. Descubra agora