Cicatrizes

31 3 16
                                        

            Samuel não escondeu as lágrimas ouvindo minha história e também não precisava. Além de nunca termos escondidos sentimentos um do outro em nossa amizade, eu já estava afogado em lágrimas a muito tempo enquanto atirava palavras tristes ao ar daquele apartamento. Me sentia tonto e abatido, não sei se pela dor de reviver uma memória tão sofrida ou se pelos copos de cerveja que se tornaram incontáveis.

Meu relato foi impactante para Samuel. Seu rosto molhado com lagrimas sinceras era comovente e reconfortante. Ele havia me acompanhado ao hospital no primeiro dia nostálgico onde nos fantasiamos de palhaços e espalhamos um pouco de alegria por aqueles corredores pálidos. Mas não tinha idéia de todas as outras coisas que aconteceram depois. Descobrir que continuei a visitar o hospital para ver Rafaela e conversar com Camila o deixou visivelmente enternecido.

- O que fez depois que recebeu a terrível noticia da morte de Rafaela? – Questionou Samuel.

- Depois de muito tempo me destruindo em lástima, me retirei da ala infantil e procurei por Camila novamente. Ela estava no refeitório, na mesma mesa em que sempre nos sentávamos para conversar. Ela parecia me esperar...

- Vocês já se conheciam bem, ela sabia que você iria precisar de consolo.

- Nós dois precisávamos. Ambos se tornaram muito próximos de Rafaela. Embora esse fim fosse esperado ele não se tornou menos doloroso. Com os olhos ainda marejados e buscando o chão, Camila voltou a balbuciar termos médicos para me explicar o fim trágico de uma vida tão jovem. Me contou sobre os últimos momentos dolorosos da garota e por todo o pesar que os pais estavam sentindo.

- Conheceu os pais de Rafaela?

- Conhecer não é bem a palavra. Conversando com Camila descobri os pais de Rafaela eram o casal desconsolado que encontrei na entrada do hospital. O primeiro, único e ultimo contato que tive com eles foi uma visão de trevas para mim.

- Perder um amigo para a morte é algo arrasador. Mas perder um filho... te arrasta para um abismo sem volta. É a inversão do caminho natural da vida.

- Naquela noite todos nós perdemos alguém que era muito importante para nós. Filha ou amiga, ela carregou uma parte de nossos corações... Camila tentava se manter forte, afinal aquele era o trabalho dela, mas as lágrimas escorriam sem controle. Eu decidi ir embora e me trancar junto de minha tristeza. Camila se levantou e me abraçou. Suas ultimas palavras em nossa despedida foi: "Obrigado por tornar os últimos dias dela mais alegres...". O nó que se formou em minha garganta me impediu de responder ao carinhoso agradecimento. Me retirei do hospital ainda chorando. Nunca mais retornei e nunca mais voltei a ver Camila.

- Achei que continuariam mantendo contato.

- Camila era uma mulher sensacional e se tornou uma grande amiga. Mas depois de todos os momentos que passei dentro daquele hospital, ela passou a ser a representação de momentos que eu queria esquecer. Camila era como o caderno que você segura nas mãos, - Disse, apontando para o caderno de desenhos que Samuel segurava. – abrigava memórias que me traziam dor. E até mesmo seu longos cabelos cor de fogo, se assemelham a capa desse caderno.

Samuel contraiu levemente as bochechas em um sutil sorriso que desapareceu tão rapidamente quanto se formou. O velho caderno pulava das mãos dele para a mesa e da mesa para minhas mãos a cada trecho de minha história. Agora de volta ao poder dele, o caderno foi novamente aberto. Samuel percorreu as páginas ressecadas. Passou pela velha árvore, pelo retrato de Helena, por textos e palavras soltas até finalmente chegar a uma página mais enrugada e amarelada do que as outras. A página carregava o desenho de Rafaela e seu maior desgaste foi causado pelas intermináveis gotas que brotavam em meu rosto e caiam sobre os traços do desenho. Chorei por tantas horas sobre o desenho da garotinha que minhas lágrimas poderiam encher o mar.

Entre Lobos e CordeirosOnde histórias criam vida. Descubra agora