Palhaços

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            - Eu nunca me irritaria por você ter se afastado em nome de um grande amor, na realidade, fiquei muito feliz quando me ligou naquela época para me reencontrar. – Disse Samuel, abrindo seu largo sorriso.

- Você sempre foi um ótimo amigo. Não sei se retribui essa amizade da mesma forma.

- Mesmo que não acredite mais em si mesmo ou em mais nada, você sempre foi e ainda é um homem bom. Teve seus momentos de afastamento mas é um amigo fiel e querido.

Ele tentava me tranqüilizar mas eu não acreditava naquelas palavras. Diante de tudo que eu fiz eu não me via como um homem bom. Destruí vidas por mero prazer e me senti sem chão. Mesmo sem saber detalhes, desde aquela época, era Samuel quem me ajudava a sair dos buracos emocionais em que me enfiava. Ele nunca se importou se eu estava certo ou errado. Tudo que queria era me ajudar.

Mesmo sem entender bem os motivos que levaram Samuel ao meu encontro na Itália, sabia que sua essência continuava a mesma, tudo que ele queria era me ajudar.

- Me lembro que logo após os problemas que teve com Helena eu fui até sua casa. Você estava arrasado – Lembrou Samuel.

- Eu estava perdido e foi você que me ajudou.

Eu tinha consciência do quanto a amizade de Samuel era importante em minha vida, mas nunca parei para pensar no quanto ele me ajudou. Ele nunca me julgava, não importa o quanto eu estivesse errado. Por isso era tão fácil conversar com ele. Eu podia falar o que quisesse sem medo de ser repreendido. Em um mundo de idéias opostas e ácidas, regras rígidas e poeiras sob tapetes brancos, ter um amigo como Samuel era um verdadeiro privilégio.

Ele até mesmo me acompanhava quando eu tinha idéias malucas. Após o término com Helena eu poderia curar minhas mágoas como qualquer pessoa, com farras e bebida. Mas em uma tarde quando voltava do trabalho, uma cena cotidiana e bem comum mexeu comigo. Foi como um estalo em meu cérebro que me deu uma grande idéia e eu iria precisar da ajuda de Samuel.

Tudo que passei ao lado de Helena e todos os problemas foram muito impactantes para mim. Não existia um só dia em que não revivesse em minha mente as cenas trágicas de nosso fim. Passava praticamente todas as horas do dia perdido em pensamentos desastrosos. Apenas em um breve momento eu fui entretido por um gesto singelo.

Cruzei as portas da empresa no final da tarde como fazia rotineiramente e percorri o mesmo caminho até minha casa. Meus passos eram sempre os mesmos, minha vida era um grande dejavú dramático. Até que em meio a grande avenida principal que levava ao meu bairro minha atenção se voltou para uma pequena criatura que se aproximava rapidamente de mim.

Uma criança de aproximadamente cinco ou seis anos, não sei precisar, se desvencilhou das mãos de sua mãe para correr livremente pela calçada. Parecia satisfeito em poder desenhar seus pequenos passos pela calçada de concreto. Sua mãe preocupada a acompanhou atenta, mas o deixou seguir pelo caminho que queria.

O jovenzinho corria, mas seus passos inexperientes se atrapalharam e o fizeram despencar. Mesmo com o ato bobo e sem gravidade, o choro foi inevitável para ele. Caído bem na minha frente, estava mais próximo de mim do que de sua mãe. Não entendo o que me levou a olhar com simpatia para aquela cena, mas foi o que aconteceu.

Meio receoso eu me abaixei diante do garotinho, nunca tive jeito com crianças e acho que elas percebiam isso, no entanto quis tentar mesmo assim. Coloquei minhas mãos sob os braços da criança e o suspendi no ar o colocando sobre os próprios pés. Enquanto batia a poeira de suas roupas cheias de bichinhos e cores, sua mãe se aproximou e sorriu para mim. Lembrei-me que carregava uma moeda no bolso direito. Coloquei discretamente a mão no bolso e retirei a moeda escondida entre os dedos. Estendi a mão espalmada e aparentemente vazia diante de seu rosto. Com um movimento rápido aproximei a mão do nariz e fingi assoá-lo fazendo barulhos com a boca e soltando a moeda no ar.

Entre Lobos e CordeirosOnde histórias criam vida. Descubra agora