Ovelha negra

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A primeira vez que a vi fiquei tão transtornada com meus pensamentos que não consegui olhar direito pra ela, mas ali naquela sala, diante da tensão aliada à preocupação e à espera pela resposta, eu reparei.

Regina tinha um estilo peculiar para uma mulher tão bonita. Digamos que não era a pessoa mais vaidosa que já tinha visto (e estava longe disso). Ela usava uma calça jeans de lavagem escura, uma camisa mais solta azul e tênis. O cabelo era nos ombros e tinha uma mexa de cada lado do rosto preso pra trás.

Mesmo simples, Regina era linda. E não tinha imaginado, até então, que a veria de modo tão frágil.

- Está tudo bem?

Passaram-se uns segundos até que alguém decidisse responder e este foi o senhor:

- Ah, oi! Está tudo bem sim, nos desculpe. Simples problemas familiares.

Eu olhei pra ele e voltei meus olhos pra Regina como se esperasse uma confirmação. Droga! Por que tenho que ser tão tímida? Deveria ter tirado ela de lá... O rosto do Robin não era dos melhores, então decidi falar logo o que queria e sair o mais rápido que pudesse, antes que reparassem demais em mim.

- Oh, tudo bem. Me desculpe por perguntar, foi impulso. - eu disse corando - Enfim, seu Robin, anotei meu nome e de uns colegas nessa folha aqui. Nós queremos mudar de sala. - soltei a frase de uma vez, agradeci e me despedi.

Foi o pior erro da semana (e ainda era terça-feira).

Eu não conseguia fazer mais nada além de pensar no que teria acontecido à Regina desde que sai. E foi no meio desses pensamentos que percebi o quanto sou desatenta. Regina Mills... UMSP seria Universidade Mills de São Paulo? Oh céus! Ela era mulher do Robin, filha do dono.

Mills não parecia uma herdeira, nem em aparência, nem no jeito de falar. Além disso, parecia simpática demais pra se casar com o Robin. O que será que estava acontecendo? Será que está tudo bem? Eu não podia deixar de inventar mil teorias e ficar preocupada com uma pessoa que tinha falado só uma vez.

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REGINA

Começar mais um semestre é o que me dá algumas de minhas maiores alegrias. Eu amo dar aula. Tenho grande amor pelos meus cursos e fico cheia de orgulho quando posso passar tudo para outras pessoas, principalmente quando elas ouvem com brilhos nos olhos. Por mais que eu não precise, é o que gosto de fazer.

Os primeiros dias são sempre mais interessantes. É engraçado entrar na sala dos calouros (turma que não abro mão) e ver expressões diferentes em cada um: medo, confusão, excitação pelo curso, orgulho... Minha vida pessoal pode não ser a mais animada, mas compenso alguns estresses na sala de aula.

Essa turma é diferente. Senti assim que coloquei meus pés na sala. Mesmo com minha pose séria e fria, eles não hesitaram em falar, sorrir, explicarem a verdade de o motivo de estarem ali. Pois é, eu gosto de conhecer um pouco de cada um antes de começar o semestre... acho que cria uma certa unidade. Teve até uma menina que falou que nem sabia o porquê estava no curso se só abria revista pra ler horóscopo. Esse pessoal nem imagina, mas me mata de rir quando paro pra lembrar.

Já estamos no segundo dia, mas só estou analisando a turma hoje. Sim, me enrolei. Mas foi pelo que aconteceu mais cedo... Sou filha de um dos caras mais ricos do estado, então minha vida sempre foi cercada de negócios. Negócios e problemas.

Meu marido é filho de um amigo antigo do meu pai, então meio que sempre estivemos em família e até que tínhamos uma relação agradável considerando as coisas que existem por trás das nossas vidas. Enfim, os dias de paz se tornaram escassos, levando com eles a Regina que um dia existiu. Simpática, livre...

SoulMate #FINALIZADAOnde histórias criam vida. Descubra agora