LIVRO 2 -- CAPÍTULO 19

130 20 8
                                        


Pouco após o almoço, a velha ama que cuidou de Lady Guinevere desde que esta nasceu até que deixasse Carmélide foi encontrar-se com a jovem rainha em seu antigo quarto de solteira. Era uma senhora rechonchuda, baixa, dentes amarelados e um eterno cheiro de cebolas, como se se esfregasse com elas.

"Chamastes-me, Majestade?"

"Ai, Babá!" Guinevere jogou-se nos braços da antiga ama assim que a viu. "O que eu faço, o que eu faço?!"

"O que houve, minha querida? Tentai acalmar-vos, não há de ser nada tão ruim assim!" disse, dando tapinhas nas costas da moça, que estava à beira das lágrimas, e fazendo um gesto para que se sentasse na cama. Puxou então uma cadeira e acomodou-se de frente para ela. "Sou toda ouvidos! Por que tanta aflição?"

"Odeio ter-me casado, Babá! Meu marido não me ama, tem um caso com outra bem debaixo do meu nariz!"

"Por isso viestes para cá?"

"Sim!" Guinevere respondeu, fungando, ar magoado.

"Vosso marido vos traiu e vossa reação foi sair de casa, deixando-o a sós com a amante, livre para uma lua-de-mel?" a senhora perguntou, com desaprovação na voz.

"O quê?!" A julgar por seu tom de espanto, tal ideia sequer ocorrera a Guinevere. "Não, é que... Oh, Babá, não brigai comigo, por favor! Não me importa mais o que ele faça! Não quero voltar para lá nem suportar tanta humilhação! Por favor, intercedei por mim junto a meu pai! Ele vos ouve tanto! Convencei-o a me aceitar de volta," ela suplicou. "Quero voltar para casa!" concluiu, peremptória.

A ama quase pôde vê-la com cinco anos de idade, braços cruzados, batendo um pé no chão e exigindo uma boneca nova. Impacientou-se um pouco:

"Não ousareis, menina, ouvistes?" e segurou o rosto de Guinevere entre as mãos, forçando-a a encará-la. "Não vades jogar vossa vida no lixo nem matar vosso pai de vergonha — e ele é bem capaz de morrer de desgosto diante desse escândalo. E vós, como credes que será vossa vida depois disso? Ireis vos trancar em algum convento que, por caridade, vos aceite, depois de uma desonra dessas? Uma mulher que abandonou o próprio marido, a própria casa?! É para isso que fostes criada com tanto esmero?"

Ao não encontrar o acolhimento que buscava na ama, as lágrimas que ameaçavam brotar dos olhos de Guinevere enfim escorreram por suas bochechas. A velha senhora teve pena, mas não podia amolecer. Sua menina tinha que entender que as coisas haviam mudado a partir do momento em que ela deixou aquele castelo.

"Milady, sempre fostes muito mimada aqui, o que, agora está claro, foi um erro, pois não aprendestes a enfrentar as dificuldades. O mundo lá fora não é Carmélide, onde todos estão dispostos a dar-vos tudo o que queiras com um sorriso no rosto. Não! Além destes portões, nada vos chegará de graça, tudo terá que ser conquistado. Chegou o momento, filha! É hora de ser resiliente! Principalmente, é hora de começar a resolver vossos problemas, em vez de sempre esperar que alguém o faça por vós, livrando-vos da responsabilidade de lidar com eles, e das consequentes preocupações e aborrecimentos.

"Se não sois amada por vosso marido, é urgente que vos façais amar pelo povo e pela corte. Nada vos dará mais legitimidade nem vos deixará mais segura em vossa posição! O rei não ousará criar subterfúgios para afastá-la e abrir caminho para outra mulher se tiverdes apoio popular, pois saberá que, caso o faça, levantar-se-ão centenas de vozes a vosso favor e contrárias a ele. Mas o amor do povo tem um preço, minha querida! Além de serdes caridosa e gentil, vossa conduta deve ser irrepreensível. Deixai o povo venerá-la, santificá-la! Nunca os deixeis descobrir nenhum malfeito vosso, ou vossa imagem santa ruirá e a antiga veneração dará lugar à mágoa por haverem sido enganados, quiçá ao ódio e ao desprezo.

"Não vos esqueçais de que, se o caso do rei for descoberto, sua hombridade sofrerá um leve arranhão que logo cicatrizará. Ele é homem, filha! A vergonha recairá sobre a amante. Porém, se vós o trairdes, vossa desonra será irreparável. Que isso fique bem claro!"

Guinevere só balançava a cabeça, olhos arregalados, oprimida pela avalanche de palavras.

"Portanto," a ama prosseguiu, vendo que a rainha não respondia, "desculpai se se insisto, mas é importante: este cavaleiro, que está tão apaixonado por vós — e vós por ele! —, esquecei-o já! Entendido?"

"De que falais, Babá?" Guinevere perguntou, torcendo as mãos e mordendo o lábio inferior, num nervosismo evidente.

"Disto, minha criança!" a ama respondeu, levantando-se e indo até a janela. Guinevere a imitou e avistou Lancelot sentado lá embaixo, encostado numa árvore. Provavelmente por ter percebido as duas silhuetas na janela, ele levantou-se de um salto.

"Que estranha coincidência esta, não é mesmo? De todas as janelas, ele veio se postar justamente defronte à vossa! Notei-o ali há um bom tempo, já!"

Um sorriso involuntário nasceu nos lábios da moça, e ela sentiu-se corar. Recompondo-se, respondeu, pigarreando, "Estais enganada, Babá! Apeguei-me a ele apenas por ser um dos poucos amigos que fiz em Camelot, nada além disso!"

"Não sou tola, minha criança! Notei o embaraço de vós dois quando ele a ajudou a descer da carroça, hoje mais cedo, e o sorriso constrangido que trocaram. Depois, percebi o modo como se olhavam à mesa do almoço — ou melhor, como evitavam escrupulosamente que vossos olhares se cruzassem. Mas, para alguém mais atento, era evidente o quanto vos buscáveis o tempo inteiro pelo canto da vista, como vossos corpos sempre se moviam em sintonia um em direção ao outro, mesmo quando falavam com outras pessoas."

A essas palavras, Guinevere chorou tão copiosamente que a ama alarmou-se. "Não vos entregastes a ele, não é?!" perguntou, sacudindo-a pelos ombros.

"Não, Babá, isso, não!"

"Ótimo!" e suspirou aliviada. "Não sejais tola, menina! Vosso marido é outro, não há mais volta! O que tendes que fazer é afastar esse rapaz de vossa vida o quanto antes. Com ele longe, o esquecereis rapidamente! Estais apenas frustrada por não poder ter um capricho atendido, como quando éreis pequenina e vos negavam que repetisse a sobremesa. Vereis que isso logo passa."

Como Guinevere nada respondesse, a ama despediu-se, dizendo, "Deitai-vos um pouco, e descansai! Pedirei na cozinha que vos tragam um chá relaxante bem forte e quente, e mais tarde virei dar uma olhada em vós. Por ora, preciso cuidar de algumas obrigações."

Vale sem RetornoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora