Pesadelos

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*POV Henry*

Cheiro de medicamentos me sobe pelas narinas e me deparo numa sala de espera em um hospital, minha visão ainda embaçada impede que eu veja corretamente a enfermeira que agora segura meu braço me levando a um corredor com pessoas correndo apressadas. Ao fundo choros de crianças tiram a minha concentração e luto para sair dali.

Percorrendo aquela passagem descubro uma sala aberta, adentro tentando encontrar respostas mas tudo que vejo são médicos discutindo, o chão coberto de sangue e um cadáver aparentemente feminino em estado de decomposição em cima da maca cirúrgica. Calafrios dominam meu corpo.

Quando minhas pernas se movem novamente busco a saída daquele cômodo voltando ao corredor sem saída, e paro em frente à sala da maternidade onde o vidro estampa a frase: "ELE ESTÁ MORTO". Sinto o toque de alguém e quando me dirijo completamente alucinado, a mulher está com o rosto desfigurado me perguntando: "PORQUE VOCÊ FEZ ISSO?".

— NÃO... PARTE DE MIM!

— Henry? Ei está tudo bem, Henry acorde foi apenas um sonho – Kristin segurava meu rosto tentando me trazer de volta à realidade.

— Me desculpa, eu não queria te assustar – a envolvi em meus braços tentando afastar os pensamentos perturbadores.

— Outro daqueles? Quer me contar o que aconteceu agora?

— Não será necessário, estou bem e amanhã vou acordar melhor – tentei sair da cama.

— Você está pálido e gritou muito alto dessa vez – ela pressionou a mão em minha perna tentando limitar meus movimentos.

— Estou bem, eu juro, apenas preciso beber alguma coisa – dei-lhe um beijo.

— Volte para cama assim que fizer isso grandão.

Vesti uma bermuda e caminhei até a cozinha, o relógio na parede marcava exatamente duas horas da madrugada e o silêncio reinava absoluto facilitando a volta da lembrança terrível do sonho que acabei de ter, então me sentei na poltrona de frente para o jardim escurecido ainda com o copo de água na mão e abri o jornal do dia anterior. Relendo as notícias descobri um caso de assalto num bairro bem próximo do onde moro, o pensamento no incidente na saída da empresa me veio à cabeça como um soco e em seguida o rosto da menina que salvei. O seu nome não foi fácil de lembrar mas as tentativas das pronúncias me levaram a Alexandra, e então lembrei do nosso primeiro encontro na sala da Kristin. Seu hálito e seus olhos incrivelmente azuis ainda não foram esquecidos. Seguindo essa linha de pensamento meu cérebro finalmente relaxou me fazendo adormecer ali mesmo.

— Cavill? – a voz da Kristin acaba com meu leve sono.

— Adormeci aqui mesmo – disse sorrindo para ela – e antes que pergunte, sim, eu estou bem e dormi melhor agora.

— Eu também adormeci assim que saiu da cama e como não te encontrei lá de novo pensei que tivesse ido pro jiu-jitsu.

— Não, hoje eu não vou, talvez fique um pouco mais na World.

— Okay, estou indo porque preciso organizar alguns arquivos dos funcionários, te vejo mais tarde vigilante – ela estava com a bolsa na mão e caminhava para a garagem.

— Então é assim que decidiu me chamar agora? – cruzei os braços a observando.

— Você prefere "herói"?

— Sabe que fiz aquilo pra salvar a garota não é? Qualquer um teria feito o mesmo. – me aproximei seguindo-a.

— Sei, mas você sabe da sua fama lá não é?

— Acha que eu me importo? Eles não dormem comigo, mal sabem quem eu sou e particularmente prefiro assim.

— Apenas aproveitei a sua fama pra zombar de você – me devolveu um doce sorriso – mas saiba que é o meu herói.

Em troca dessas palavras não cedi-lhe nada além de um beijo e um olhar afetuoso, Kristin sempre soube da minha dificuldade com sentimentos mas nossa relação sempre foi reciproca em todos os aspectos.

Nos despedimos e regressei para dentro para tomar banho e voltar para a empresa, vesti um colete e calça azul com uma camisa branca não queria chamar mais atenção do que provavelmente chamaria hoje, então decidi chegar vinte minutos mais cedo.

Estacionei meu carro a poucos metros de distância da entrada do prédio e subi diretamente para minha sala, sem o excelente café que Sara me trazia do Starbucks mais próximo todos os dias sem o mínimo esforço, ela era recepcionista principal da portaria, porém esse não era seu horário.

O primeiro turno começaria com uma reunião que só acabaria na hora da pausa para o almoço, e a tarde eu faria alguns telefonemas na tentativa de fechar acordos e marcar mais reuniões com futuros colaboradores.

Quando o pôr do sol começava a surgir e atravessou a parede de vidro do meu lado esquerdo iluminando completamente a sala, fui interrompido por pequenas batidas rápidas na porta.

— Cavill o que está fazendo aí? – disse Daniel adentrando.

— Algo que você deveria estar fazendo, trabalhando obviamente – proferi me voltando ao computador em minha frente.

— Você é um completo chato, me referi a algo mais interessante e se quer saber já acabei o que tinha que fazer – ele disse fitando os olhos negros em mim.

— E não tinha mais nada nesse prédio pra fazer além de me importunar? Recolher o lixo do pessoal seria uma ótima tarefa.

— Na verdade não – ele disse dando uma pausa para começar o novo assunto – fiquei sabendo do ato heroico ontem, pelo visto alguém está mais próximo da novata.

— Me poupe do seu falso deslumbre e fale logo o que quer – franzi o cenho.

— Por que está se ferindo tão facilmente?

— Porque não quero falar sobre isso e tive um dia cheio demais e ainda tenho mais obrigações, então se me dá licença Daniel pode se retirar se não tiver nada mais interessante pra conversar. – o encarei irritado.

— Okay, estou de saída mas antes me diga se ela não tem belos seios? – seu rosto enchia-se de prazer.

— A única coisa que irei te dizer se você realmente não sair agora vai ser que está demitido – me levantei agressivamente.

Daniel saía pela porta distribuindo sorrisos em minha direção, ele estava ciente de seu cargo e de como chegou até aqui, eu não podia demitir o primo do meu sócio sem as devidas provas.

Voltei ao que estava fazendo desprezando as palavras sujas de Daniel, mas novamente fui interrompido por novas batidas na porta.

— Daniel se você insistir em dizer mais alguma... – interrompi minha ameaça quando Alexandra surgiu.

— Desculpa, posso voltar mais tarde se estiver... atrapalhando alguma coisa.

— Não, apenas não tive um bom dia. Prossiga ao que veio fazer aqui – devolvi minha atenção ao computador, não conseguia encará-la nos olhos depois de ontem.

— Apenas... vim dizer obrigado pelo que fez ontem, mesmo com tantas pessoas ao redor eu me senti sozinha e achei que as coisas iriam piorar depois dali... – era perceptível a descarga de ansiedade em seu pé balançando sem parar do outro lado da mesa.

— Apenas fiz o que qualquer pessoa faria se tivesse percebido algo é claro – meu semblante continuava hostil.

— De qualquer forma obrigado, não esquecerei isso facilmente, quer dizer... esquece, o senhor me entendeu – disse se retirando rapidamente.

Forço meu cérebro a esquecer suas últimas palavras e o som de sua voz para me concentrar no que estava fazendo, naturalmente esboço um sorriso simples ao sentir toda a essência que ela deixou na sala.

Sentimentos SigilososWhere stories live. Discover now