A Metamorfose

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Sofia passa a mão pelo vidro embaçado do banheiro, acabando de se enrolar numa toalha felpuda, saindo de um banho vaporoso. Conforme tira a camada de vapor, vai revelando sua imagem refletida, analisando pensativamente sua aparência; os cabelos, antes longos, agora estavam na altura do queixo, repicados e indo em todas as direções. Se já sempre fora magra, perdera ainda mais peso, pois suas maçãs do rosto estavam mais proeminentes e seus olhos um pouco mais fundos, incrementando, junto às suas olheiras, uma aparência mórbida à ela.

Pensando nas palavras de Dante, ela concordava que parecia muito com um menino magrela, afeminado. Apesar da passagem pela puberdade ter lhe dado um par de seios e seus quadris terem se alargado um pouco, as coxas também tendo um upgrade adequado e ter ficado alguns centímetros mais alta, Sofia sentia que sua magreza lhe dava um ar mais ou menos desengonçado, arruinando toda a sensação possivelmente agradável de se tornar uma quase adulta fisicamente.

Ela passa os dedos pelo quadril, notando que formara uma reta logo após a curva da cintura ao invés de aumentar e ela vergonhosamente concordou com Dante que realmente, realmente parecia mais um menino do que uma mulher.

Ao lembrar de Dante, ela solta um suspiro desanimado também se lembrando de que deveria ir mais tarde até o apartamento de Robert para começarem a primeira parte do trabalho de literatura.

Dante, no final da aula quando o sinal bateu, foi até sua mesa e fez questão de passar seu número para o celular de Sofia—sendo orgulhoso demais para pedir o número dela—, para que ela ligasse e ele lhe desse o endereço da casa de Robert, o ponto de encontro deles.

-E não se atrase. Leve seu livro e seu material porque eu não vou te emprestar, cara.—Dante sussurra à meia-voz, sorrindo amigavelmente encostando seu quadril estreito na ponta de sua mesa, cruzando os braços inclinado para ela. Quem visse de longe imaginaria que estivesse dizendo coisas muito amáveis à Sofia.

-Não vou, fofa. Pode deixar.—Ela respondeu sorrindo igualmente cínica.

Dante estava com a mania, desde que ela mudara radicalmente de visual, de a chamar de “cara” e “mano”. Mas Sofia não ligava muito, ficava até feliz por saber que o brochava. Para ela, era um elogio vindo dele. Mas em algum lugar, dentro de si, seu orgulho feminino gritava revoltado para que ela se defendesse.

Sofia se trocou vestindo um jeans antigo, uma regata e sapatilhas. Pegou seu casaco e secou bem o cabelo em poucos minutos, já que era curto, e passou um pouco de maquiagem para disfarçar sua cara de doente.

Ela sentiu um arrepio de repente. Cruzou os braços e fechou os olhos, contendo uma onda de pensamentos desagradáveis e memórias agora agridoces e melancólicas. Tentou não pensar em Viktor, mas fora impossível. O amigo, antes tão presente em seu coração e memórias, tão vivido, agora mais lhe parecia um personagem fictício do que alguém real. Não tinha contato algum com ele durante todo esse tempo, desde que fora embora. Nenhuma palavra. Nada. Lhe mandara aquela carta, depositada em sua bagagem de mão secretamente como um favor de Eva para ela; mas Sofia não recebera uma resposta.

Ele lhe prometera que voltaria, que até se casaria com ela. Mas agora tudo isso parecia tão banal e distante até mesmo para Sofia. Não fazia ideia de como ele estava ou se pensava nela. Afinal, eles eram muito jovens quando se apaixonaram; provavelmente Viktor nem se lembrava mais dela, ou sentia o que achava que sentiu naquela semana que estiveram juntos.

Dali alguns meses se completaram dois anos sem que eles se vissem. Sofia, apesar disso, sempre sentia um aperto no coração ao se lembrar de seu amigo. Viktor para ela agora era mais uma figura de paixão platônica que ela levava para seus dias. Ela sentia que mudou muito durante esse tempo e imaginava o quanto ele não deveria estar diferente também.

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