O Catalisador

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VIKTOR NÃO CONSEGUIU MAIS ver Sofia naquele dia. Ele seguiu a sua rotina maçante de estudos para agradar sua mãe até que a hora do jantar chegasse, junto ao seu pai, que tinha saído para se encontrar com colaboradores de um evento importante da companhia que Viktor não se dava ao trabalho de saber o que era. Quando se sentaram os três à mesa—Viktor, sua mãe e seu pai—, um silêncio idêntico ao do almoço daquele dia mais cedo se instalou; entretanto, por uma possível intervenção sugestiva de sua mãe, seu pai o quebrou perguntando o que acontecera enquanto ele estivera fora, comentando com uma despreocupação ensaiada que sua mãe lhe parecia um pouco calada quando chegou.

Viktor meramente respondeu lhe contando com detalhes que Sofia viera o ver e que ele havia se declarado para ela, destacando o porquê dele ter se trancado no quarto, gerando a cena em que sua mãe entrou na narrativa, explicando também a parte do beijo. Na verdade, os dois beijos que se seguiram à essa cadeia de eventos mal interpretados.

Sua mãe não se agradou nem um pouco com sua história, mas parecia para ele que pelo menos ela estava um pouquinho menos furiosa com Sofia. Em um polo extremo, seu pai ficou felicíssimo ao saber da notícia. Ele sempre estivera cauteloso em relação à sexualidade do filho; desde criança Viktor fora frágil, delicado e sensível, apático aos costumes tradicionais masculinos, como gostar de se sujar e fazer bagunça—mas isso foi agravado pelo fato de sua doença o impossibilitar de sair e brincar como qualquer outra criança—, sem pensar nas consequências. Ele era organizado e limpo, com a aparência um pouco feminina pela predileção por deixar seus cabelos longos e soltos. Sem contar com seu entusiasmo por coisas de menina, como balé, ginástica e patinação artística. Seu pai não era tão insensível à ponto de o inibir de seus gostos e o tratar com uma frieza ojeriza, mas sempre tivera àquela pulga atrás da orelha, que deixava perturbada a sua imaginação de vez em vez.

Ele respondeu a Viktor que fizera bem em ter coragem de expressar seus sentimentos—como um verdadeiro homem crescido—e que estava curioso para conhecer Sofia, incentivando que aproveitassem o seu tempo juntos. Sua mãe, apesar de ser um sargento longe dos olhos de seu pai, não se atrevia a contrariá-lo—pelo menos não em sua frente. Viktor somente percebeu seu desagrado pela singela ponta de desgosto nos cantos de seus lábios, comprimidos para o seu prato.

O resto da noite se passou lenta e maçante igual o dia; Viktor foi obrigado a ler um romance russo que sua mãe lhe trouxera de casa por uma hora antes de ir para a cama, onde ele finalmente conseguiu alguns minutos de reflexão, romanticamente repassando todas as cenas daquele dia inesquecível em sua memória.

Quando estava quase pegando no sono, uma batida surda na porta de madeira ecoou no quarto espaçoso, o fazendo se revirar e ir a abrir com desânimo: era seu pai, ele levava uma caixa preta nas mãos e sorria de uma forma cúmplice que ele jamais tivera com Viktor antes.

-Pai? Tudo bem?—Viktor pergunta surpreso e cansado, mas tentando parecer amigável.

Seu pai não demonstrava, mas Viktor sabia que ele era um homem sensível e extremamente orgulhoso; certa vez, ele comprara flores para sua mãe em uma data especial, mas ela se enfurecera por algo e acabou as jogando fora num ímpeto de raiva, então seu pai nunca mais a deu flores novamente. Ele não fizera uma cena ou se irritara; simplesmente ficou calado e se retirou, sua mãe não se desculpou e eles nunca mais tocaram no assunto. Em ocasiões especiais agora ele simplesmente pede para um empregado descobrir algo que ela queira no momento e compra—mas não entrega pessoalmente. Ele não podia pensar em algo mais impessoal e frio do que isso. Viktor não queria o dar outra experiência do tipo e o fato dele estar ali pessoalmente para entregá-lo algo significava que ainda tinha esperança numa melhora na família.

-Viktor, entregue isso para a sua amiga. As mulheres gostam de algo para se lembrar de nós quando não estamos perto.—Seu pai explica estendendo o pequeno pacote entre o vão da porta para ele.

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