Eu Me Lembro Bem

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Um ano atrás...

Sofia estava sentada na mesa da biblioteca durante o intervalo, com os fones de ouvidos ligados no celular, escutando “Ochi Chornye”, um clássico da música russa que sempre a lembrava de Viktor, lendo Crime e Castigo de Dostoievski. Ela andava eufórica em aprender e absorver o máximo que podia da cultura do país de Viktor; logo ia se completar um ano que ele fora embora, e, como seu amigo sempre voltava na mesma época, faltavam poucos meses para que ela o visse novamente. Sofia não conseguia parar de pensar nele e, apaixonada e ansiosa como era, não conseguia esperar ou fazer qualquer coisa que não tivesse uma relação com Viktor. Daí a necessidade da música clássica e do autor russo; mas, além disso, Sofia também reservara o canal de esportes para poder acompanhar as olimpíadas de inverno. Mais precisamente, acompanhar a patinação artística. Era quase um ritual dela e de Viktor assistirem os campeonatos europeus e as olimpíadas juntos.

Sofia estava com esperanças, mas não sabia se ele viria mesmo, pois não fizera nenhum contato e ela não soubera de nada por Eva ou nenhum dos empregados da família. Ela até mesmo criara uma conta nas redes sociais—coisa que odiava—, somente para tentar se comunicar com ele. Mas nada. Viktor também não gostava de ter perfis e coisas do gênero, achava superficial e ela concordava. E, apesar dele nunca ter a contatado antes quando voltava para a Rússia, ela nunca se sentira magoada porque ela era muito nova e eles eram amigos e só. Mas Sofia esperava que, dessa vez, ele ao menos tentasse falar com ela, mesmo que somente para dizer uma palavra.

Sofia estava tão centrada dentro do livro e também dentro da própria cabeça, que, quando Dante entrou novamente na biblioteca e se sentou ao seu lado, ela não o percebeu durante cerca de cinco minutos inteiros. Foi só graças ao seu resfriado, que pegara na noite anterior correndo para espairecer, que ela espirrou e acabou notando Dante ali; o menino a observava com um sorriso de canto muito charmoso, como se fitasse algo interessantíssimo e, após o espirro, ao ver a expressão assustada de Sofia, ele simplesmente ampliou esse sorriso e tirou o fone esquerdo dela, sussurrando:

-Saúde.

Sofia corou e tirou o outro fone também, fechando seu livro e sorrindo embaraçada.

-Obrigada. Desculpa se você me disse algo e eu não escutei, eu est...

Dante a interrompe no meio da frase, dando uma palmadinha calmante em seu antebraço que se apoiava na mesa.

-Não, não. Eu vi que estava concentrada, achei fascinante como nem me percebeu durante tanto tempo. Estava te observando daqui.—Ele confessa sorrindo e indicando com a mão longa e delicada a mesa de tampo escuro. Ele mesmo estava com um livro; era a coletânea de poemas que Sofia pegara na semana anterior. Ao notar isso, ela imediatamente se questionou se ele o fizera de propósito apenas com o objetivo de puxar um assunto com ela. Era uma boa oportunidade, mas ao observar quem fizera isso, ela não imaginava que alguém como aquele menino precisaria de ajuda para a paquerar.

A menina, agora com a atenção atraída pelo garoto charmoso, o analisou interessada; ele se sentara com as pernas cruzadas elegantemente, com uma das mãos pousadas na coxa direita e a outra na base do livro. Não era um deus grego quanto à beleza tradicional, pois tinha alguns “erros” da natureza; o nariz arrebitado era pintado de pequenas sardas, assim como as maçãs do rosto, seus lábios eram largos, mas finos, seu rosto pequeno como o crânio de um gato. Mas apesar disso, até em primeira vista Sofia podia ver porquê ele parecia tão popular e confiante; os cabelos negros e espessos eram macios, havia uma pinta perto dos olhos amendoados e marcantes e, somado com sua palidez e magreza, lhe davam uma aparência de destaque e sofisticação.

Sofia gostara dele e de seu jeito único, mas tinha plena certeza de que seus charmes encantavam mais do que só a uma pessoa e, o mais importante, ela tinha certeza também de que ele sabia disso. Algo em seu sorriso e em seu olhar predatório lhe dava uma prova viva de que aquele menino nunca levara um não em toda sua vida. Não sabia o que ele queria ainda, mas—até mesmo se ela estivesse disposta e quisesse—, seja lá o que fosse, ela estava determinada a negar.

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