Eu Sou SoL cap 1

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Lembrar às vezes dói, mas é preciso
Eu Sou Sol.  

                          Capítulo 1

Ficar paraplégica não foi um dos meus pedidos. Na verdade, eu nem pedi para nascer.
Mas a vida é irônica: fui o espermatozoide mais rápido, o vencedor involuntário de uma corrida que me condenou a esta existência.

As paredes do meu quarto, antes um refúgio de adolescente, agora parecem se fechar sobre mim, apertando.
A tinta lilás já começa a descascar perto da janela, revelando o reboco por baixo. O ventilador de teto gira devagar, rangendo de tempos em tempos, como se também estivesse cansado.

Meus avós insistem para que eu saia daqui, que conheça pessoas — como se a solidão fosse uma escolha, e não uma sentença imposta por essas quatro paredes.

Se formos analisar, tudo é uma grande sentença.

Eles tentam me tirar deste quarto há mais ou menos um mês. Essa deficiência acaba comigo. Sinto dores terríveis à noite, sofro de insônia e, como bônus, agora tenho depressão.

A dor não vem só das pernas mortas. Vem dos órgãos aos poucos sendo esmagados pela imobilidade, das noites em claro ouvindo o tique-taque do relógio contar os segundos da minha agonia, como se zombasse da minha permanência estática.

Meus músculos gritam em silêncio. A pele, antes firme, começa a ceder ao peso do tempo e da paralisia. Às vezes, coço sem sentir — como quem tenta arrancar a ausência à unha.

Minhas pernas, antes tão minhas, agora são um peso inerte, alheio ao frio do lençol ou ao calor do sol que entra pela janela. E ele entra tímido, atravessando a cortina de renda, espalhando padrões no chão de madeira gasta, que range sob as rodas da minha cadeira.

Antigamente, eu era feliz. Não era a garota popular, mas era livre.
Lembro-me de correr descalça na grama molhada do quintal, o cheiro de terra subindo, o riso dos meus pais me seguindo. O mundo era grande, e meu corpo me obedecia.

Tinha minhas próprias pernas. Não precisava de alguém para empurrar minha cadeira ou me carregar no colo só para me mover. Eu ia. Corria. Caía e ria da queda.

Depois do acidente, minha fala ficou um pouco embaralhada, mas nada que atrapalhe muito. Só que... eu não me sinto mais livre. Estou presa nesta cadeira.

Vivo com meus avós desde o acidente que matou meus pais e, de certa forma, me matou também. Eles se esforçam — vejo a preocupação em seus olhos cansados — mas o peso da minha presença parece esmagar a todos nós.

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O Dia Que Me Roubou Tudo

Era uma quinta-feira ensolarada. 19 de julho. Meu avô faria 68 anos.

O céu estava tão azul que doía olhar. Um daqueles dias em que o mundo parece em paz, mesmo quando a tragédia espreita na próxima esquina.

— Neste verão, eu e o vô vamos pescar tanto peixe que sua mãe vai ter que inventar receitas novas! — meu pai ria, abraçando a vara de pesca nova como um menino com presente de Natal.

— Tá esquecendo que o cozinheiro é você? — minha mãe disse com um leve sorriso nos lábios, ajeitando o cabelo com os dedos manchados de protetor solar.

O último momento de felicidade:

Mamãe no banco do passageiro, o vestido vermelho que tanto amava balançando com o vento que invadia pelas frestas

Eu atrás, abrindo a janela para sentir o vento contra o rosto, o som das cigarras ao longe

Papai cantando "Volare", desafinado, batucando no volante com os dedos

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora