Capítulo 4
A frase ecoava em minha mente como um mantra doloroso
"O sofrimento é inevitável."
Olhei para a grama esmeralda à frente da casa, o aroma úmido da chuva recém-caída invadindo minhas narinas.
Era um cheiro familiar, um conforto agridoce que me transportava para lembranças de um passado que eu teimava em evitar.
Esta agora era minha casa, mas por tanto tempo eu a rejeitei. As tentativas dos meus pais de me trazer nas férias invariavelmente esbarravam em minhas desculpas e subterfúgios.
Agora, sentada na varanda, sob o ritmo constante da chuva, eu via as mudanças ao meu redor: o antigo quarto do meu pai se transformando no meu refúgio, os pesados carpetes da sala substituídos por um chão de madeira frio e impessoal.
Minha presença ali havia, aos poucos, desmantelado a antiga rotina, roubando o conforto que antes permeava cada canto da casa.
— Ei, seu chá está ficando frio — a voz de meu tio, Tito, rompeu meus pensamentos.
Sua mão pousou levemente em meu ombro, um toque que me trouxe de volta à realidade melancólica da tarde chuvosa.
Olhar para meu tio era sempre um misto de ternura e dor. Ele podia ser a personificação da doçura em um instante e, no seguinte, uma criatura áspera e distante.
Talvez, como diziam, um amor avassalador o tivesse quebrado, esvaziado de sua essência, transformando-o em algo oco.
Eu me recusava a acreditar nessa ideia sombria, preferindo me agarrar às narrativas onde o amor triunfava — onde ele era o herói, a força redentora.
— Por que está me olhando assim? — perguntou ele, seus olhos castanhos fixos em mim por cima do grosso livro de medicina.
Uma pergunta sobre a ferida que o assombrava pairou em meus lábios, a curiosidade de saber quem o havia transformado nesse ser por vezes ausente e amargo.
Mas a reprimi, deixando que o silêncio da chuva preenchesse o espaço entre nós.
— Nada demais. Está frio, não acha? Podemos entrar? — murmurei, envolvendo meus braços em torno de mim numa tentativa de parecer convincente, embora minha vontade fosse permanecer ali, sentindo a melancolia da chuva até que ela cessasse.
Se dependesse de mim, choveria todos os dias.
A chuva tinha o sabor nostálgico das lembranças, evocando as tardes aconchegantes com minha mãe — o chocolate quente fumegante em nossas mãos enquanto assistíamos a programas banais na televisão.
— É apenas 17h40. Vamos ficar mais um pouco! Até eu terminar de ler o capítulo 51! — respondeu ele com firmeza, virando mais uma página do livro.
Um alívio sutil percorreu meu corpo.
Levei a xícara aos lábios — o chá agora morno, a canela intensificando-se, misturando-se ao sabor frutado da maçã, uma explosão reconfortante que me fez suspirar.
Ao abrir os olhos, uma silhueta indistinta se movia na chuva. Forcei a vista, mas a intensidade da água e a névoa toldavam minha visão.
A figura se aproximava lentamente, alheia à tempestade.
Contornos surgiram, revelando cachos escuros e úmidos que, apesar da chuva, mantinham sua forma.
A pessoa tentou apressar o passo ao notar nossa presença, mas Tito, sempre perspicaz, agiu com rapidez.
— Tome um chá conosco, Lumar! — gritou ele, pousando o livro na cadeira ao lado.
Fiquei surpresa com a familiaridade repentina, com a forma como ele havia dado um nome àquela sombra antes que eu pudesse sequer distinguir um rosto.
Tito permanecia de pé, aguardando uma resposta que não parecia vir.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
