eu vejo você

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" Você me desmorona"

Eu Sou SoL

                                  Capítulo 9

Querido diário

Nesses últimos dias, tenho pensado em suicídio. Mas não se preocupe — não tenho coragem suficiente para cometer esse ato. Na verdade, minha mente tem se perdido em tantas besteiras... Tenho pensado em uma pessoa, e essa confusão me consome. Não queria estar sentindo isso, sabe? É como se uma gasolina invisível incendiasse meu coração, e eu não conseguisse apagar esse fogo que arde dentro de mim.

— Pronta para começarmos? — pergunta meu tio, entrando no quarto com seu costumeiro tom firme, como se quisesse me arrancar daquela nuvem escura em que me encontro.

Meu psicólogo pediu para que ele me ajudasse com os cinco passos para controlar a crise de pânico até a próxima consulta, dizendo que assim o processo seria mais rápido. Ele percebe que estou distraída com algo nas mãos.

— O que é isso? — pergunta, parando à minha frente.

Eu poderia mentir e dizer que estava lendo um livro, mas conheço meu tio. Se eu dissesse isso, ele certamente pegaria o livro, só por curiosidade e para controlar meus passos. Então, decidi mostrar.

— Estou escrevendo os últimos acontecimentos neste diário que ganhei da mamãe — digo, exibindo o caderno.

— Ah! Vamos começar? — Ele dá de ombros, já tomando sua posição.

Ele fica olhando para o diário, como se tentasse entender onde eu poderia guardá-lo. Se eu o escondesse na gaveta, ele saberia que guardo segredos. Então, o deixei livre, sobre a mesinha de cabeceira. Meu tio sempre se atrai pelas coisas difíceis, não pelas fáceis.

Começamos os exercícios, seguindo a regra de um a cinco. Meu tio estava realmente empenhado em me ajudar — não desgrudava as mãos das minhas.

Naquele instante, ele me pareceu tão paternal que pude ver, por um breve momento, meu pai refletido nele.

Depois que meu pai faleceu, vi meu tio — que antes carregava uma garrafa de uísque  nas  mãos — se refazer. Ele abandonou as garrafas e voltou a se dedicar aos livros de medicina antes empoeirados, abandonados.

No enterro dos meus pais, ele se fez de pedra. Não derramou uma lágrima. Mas isso não significava que não sentisse. Naquele dia, fumou mais do que o normal — um sinal claro de que estava despedaçado por dentro.

— Chegamos ao último passo! — disse ele, suspirando em agonia.

Vi os olhos do meu tio lacrimejarem. O quinto passo também não era fácil para ele. No fundo, todos nós temos monstros para enfrentar.

— Tio! Pare de chorar! — pedi, surpresa ao vê-lo tão vulnerável.

Nunca o tinha visto assim, se permitindo sentir a dor, a emoção. Talvez a muralha de força dele estivesse desmoronando, assim como a minha.

— É só... todos esses passos ridículos! Isso é um saco! — desabafou, frustrado.

Apenas sorri. Ele era tão bom em fingir e mentir... E agora o vejo  vacilar. Confesso que não foi um momento agradável. Nunca é bom ver alguém chorar, por dores para as quais não havia remédio para amenizar.

— Estou exausta! Acho que já está na hora de buscar meus avós! — anunciei.

Meu tio apenas me lançou um olhar, e seus olhos se compadeceram dos meus. Ali, nos tornamos cúmplices... cúmplices em fugir do quinto passo.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora