Capítulo 5

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"A fé precisa ser forte o suficiente para mover montanhas."

- Eu Sou SoL
                               
                                 Capítulo 5

A vida é um labirinto de feridas abertas. Há um ano, meu mundo desmoronou junto com meu corpo no asfalto. Desde então, arrasto-me entre lençóis, hospitais, fisioterapias intensas e remédios, engolindo culpas como se fossem hóstias amargas.

Meu tio Tito insiste que estou "bem assim", mas sua versão de "bem" é uma cela de vidro, ele me observa, controla cada comprimido, cada refeição, como se meu fracasso fosse sua única obra-prima.

Hoje, porém, algo rachou o vidro. O telefone tocou, e a voz de Toni, meu outro tio, atravessou a linha como um sopro de vento em um deserto.

– Sol, minha menina! Consegui uma vaga para você no projeto do doutor Sandder. Um implante elétrico... pode ser sua chance de andar de novo. –

As palavras dele perfuraram meu peito. Tentei responder, mas só consegui soluçar. Lágrimas escorriam quentes, salgadas, misturando-se ao gosto de esperança – doce e perigosa.

Minhas mãos tremeram tão forte que o telefone escapou dos dedos. Tio Tito arrancou-o de mim, seu riso cortante ecoando no quarto.

– Qual é a esperança da vez? Você sempre faz isso, Toni! Enche ela de ilusões para depois deixá-la em pedaços. Ela não precisa das suas maluquices! –

Quis gritar. Quis cuspir toda a raiva que fermentava em mim há meses. Mas engoli o veneno, como sempre. Tito é um furacão – discuti-lo só espalha os destroços mais longe. Enfiei o rosto no travesseiro, deixando o cheiro de tecido velho afogar meu desespero.

Fazia um mês desde a última ligação do tio Toni. Um mês em que tudo permaneceu igual por fora — comprimidos, janelas fechadas, o som abafado da televisão vindo da cozinha — mas por dentro, algo começou a se mover. A esperança, mesmo soterrada, deixa rachaduras.

Foi também nesse mês que comecei a observar Lumar com outros olhos. Toda tarde ela passava em frente à minha casa , os fones pendendo dos ombros, os olhos azuis fixos em um ponto qualquer do mundo. Seus cabelos cacheados e escuros pareciam dançar ao vento, selvagens e belos, como se recusassem ser domados.

Vestia-se sempre em tons escuros — preto, cinza, vinho profundo — como se quisesse ser sombra, mas acabava chamando atenção mesmo assim. Era como se ela carregasse a noite nos ombros, e eu... eu era apenas um corpo preso à terra.

Nunca trocávamos uma palavra, mas eu a via. Sempre a via. E, de algum modo, parecia que ela também percebia.

Ela era a única coisa viva do lado de fora da minha cela de vidro.

À noite, revirei gavetas até encontrar o diário que mamãe me deu no último aniversário. A capa de couro ainda cheirava a ela

– lavanda e chá. "Escreva coisas alegres, minha flor", ela dissera.

Mas todas as páginas estavam virgens, como um espelho do meu vazio. Pela primeira vez, risquei palavras com força, quase furando o papel:

"Talvez eu ande de novo. Talvez eu escape."

Meus avós irromperam no quarto, carregando sopa e preocupação em italiano.

– Chiudi la tenda, piccola! Non sai cosa c'è là fuori! – rosnou vovô, enquanto enfiava colheradas de sopa na minha boca, como se o calor dela pudesse preencher o vazio do meu coração.

Horas mais tarde, meu tio Tito entrou sem bater. Seus olhos vermelhos evitavam os meus.

– Eu estava errado!  Você... merece escolher seu próprio inferno. – A voz dele rachou, e pela primeira vez vi cicatrizes sob sua ira. Não respondi. Palavras são armas aqui, e eu já estava em pedaços.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora