"É preciso perder para aprender a valorizar o que se tem "
Eu sou SoL
Capítulo 3
Eu amo existir. Sempre amei. Porém, ultimamente, tenho sentido medo de acordar.
A voz dentro da minha cabeça soa fraca, como um eco dentro de uma caverna distante, mas a angústia é enorme — densa, quente, viva. Enquanto durmo, há uma chance — mesmo que mínima — de ver meus pais outra vez. Num sonho, numa lembrança fugaz... qualquer coisa que me devolva um pouco do que fui.
Enquanto durmo, eles voltam. Meu pai com seu suéter verde, o cheiro de café forte e jornal amassado. Minha mãe cantando baixinho no corredor, pés descalços deslizando pelo piso de madeira, deixando rastros invisíveis de lavanda e vida.
Mas quando acordo, tudo some. A ausência se impõe como uma parede de concreto no peito. A realidade é crua, sem cheiro, sem cor, sem colo.
Mais uma noite sem dormir direito. As dores estão insuportáveis. É difícil explicar como algo abaixo da cintura, que nem sequer sinto mais, pode doer tanto. Mas dói. Meus órgãos parecem comprimidos, sufocados por essa vida estática — sentada o dia inteiro ou deitada, imóvel. Meus pulmões são os piores. Cada respiração é uma lâmina que abre caminho entre as costelas.
Olho para os remédios ao lado da cama. Tão próximos, tão longe. Tento pegá-los, mas meu braço fraqueja. Escorrego, caio no chão com um baque surdo que ecoa pela casa silenciosa.
“Que humilhação.”
Me debato, tento me arrastar, tento me apoiar na cama, mas minhas pernas mortas são um peso inútil, um lembrete constante da prisão. Acabo me rendendo, puxando o edredom para cobrir meu corpo no frio do piso. O chão gélido gruda nas minhas costas e absorve minha última vontade de gritar:
— Tio Tito!...
Quase grito, mas mordo o lábio com força. Não. Já sou um fardo demais.
Preciso chamar ele? Não... Ele vai ficar irritado. Vai dizer que eu nunca aprendo. Que não sou capaz de nada sozinha.
Já sou um incômodo demais.
Então, vejo o teto. A lua pintada por meu pai.
Ela ainda brilha, desbotada, numa mistura de tinta acrílica e saudade. Há alguns anos, ele estava ali, naquela escada precária, rindo como uma criança enquanto terminava o desenho. Eu tinha cinco anos. Era o dia em que iríamos ao zoológico. Por que essa memória dói tanto agora?
Fecho os olhos. Deixo a lembrança me levar, como se fosse uma onda morna no meio da madrugada. E, finalmente, adormeço.
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— Cara, não acredito que ela não me chamou! — Que porra, Sol!
A voz do meu tio me alcança num limbo entre o sono e a vigília. Sinto sua mão áspera no meu rosto, o toque seco, impaciente, mas real.
— Shhh... apenas continue dormindo.
Ele me levanta do chão com um esforço bruto, mas necessário. Meus olhos pesam como chumbo. Tento falar, mas ele me cala com um gesto breve, talvez mais gentil do que de costume.
— Não deve ter sido fácil passar a noite aí.
Seu cheiro de café velho e cigarro é tão familiar que me dá enjoo e conforto ao mesmo tempo.
— Dormiu aqui a noite toda? Porra, Sol...
Seu tom é duro, mas seus braços são firmes. E, naquele instante, mesmo sem carinho, há cuidado.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
