" Um momento pode durar para sempre "
- Eu sou SoL
Capítulo 6
Os dias que se seguiram àquela invasão noturna foram impregnados por uma estranha sensação de vazio. A presença fugaz de Lumar havia deixado uma marca indelével em meus sentidos, um eco silencioso que pairava no ar do meu quarto. Seus olhos azuis, ora ferozes, ora vulneráveis, assombravam meus pensamentos, misturando-se às lembranças fragmentadas daquela noite tensa. O cheiro de terra molhada e metal parecia ter se infiltrado nos lençóis, nas cortinas, em cada canto do meu santuário.
Aquele disparo do coração, que eu já havia sentido de forma tão intensa e confusa na presença de Lumar, era uma lembrança física persistente da intensidade daquela noite. A ausência dela era um buraco silencioso, uma lacuna inesperada na monotonia dos meus dias. Eu me pegava olhando para a janela, o ponto exato onde sua figura havia surgido na escuridão, imaginando se ela voltaria.
Contei todos os dias desde a última vez que a vi. Montei na varanda um pequeno campo de observação, sentei ali durante uma semana, observando cada passo vindo da antiga casa dos Lorritos.
Não conseguia mais me concentrar nos estudos. Até o velho chá da tarde, que era tradição, passou a ser um mero chá, perdendo o sabor na xícara. Mas nesses dias em que Lumar não dava notícias e não aparecia, seu irmão foi quem mais se fez presente.
Estranhamente, Lions se aproximou do meu avô. Durante essa semana maluca de observação da casa ao lado, ele passou aqui todos os dias, ajudando meu avô e o tio Tito a consertar o jardim que havia sido plantado com tanto amor, mas que a chuva intensa destruiu.
Enquanto minha mente vagava pelos labirintos daquela noite e na minha crescente obsessão para vê-la de novo, a presença constante de Lions era um raio de sol suave. Ele continuava a visitar a casa, ficando mais próximo dos meus avós ao passar a frequentar a igreja.
Nossas conversas se estendiam por mais tempo, abordando temas diversos — dos livros que eu lia até os sonhos que ele acalentava para o futuro. Sua curiosidade genuína sobre meus pensamentos e sentimentos me fazia sentir vista e valorizada de uma maneira que eu nunca havia experimentado antes.
Naquela tarde em particular, o sol já começava a se inclinar no horizonte, pintando o céu com tons alaranjados e rosados. Lions se ofereceu para me ajudar a descer da varanda e aproveitar o ar fresco do jardim. Ele manobrava minha cadeira de rodas com perícia e cuidado surpreendentes, sempre atento à minha segurança e conforto.
Enquanto descíamos pela pequena rampa improvisada, uma das rodas da cadeira prendeu em uma fresta irregular do piso. Houve um solavanco repentino, e por um instante, senti meu corpo inclinar perigosamente para o lado. Um grito de surpresa escapou dos meus lábios, e meus dedos se crisparam no apoio da cadeira.
Lions reagiu no mesmo instante. Seus braços firmaram-se ao redor da parte superior do meu corpo, impedindo a queda. Senti a tensão em seus músculos, a proximidade do seu rosto enquanto ele se esforçava para me estabilizar. Por um breve instante, nossos olhares se encontraram, e naquele contato visual inesperado, senti aquele conhecido disparo no meu peito, a mesma aceleração cardíaca que a presença de Lumar havia provocado — embora a natureza da emoção fosse completamente diferente.
Havia algo distinto naquele olhar de Lions. Não era a gentileza suave e reconfortante a que eu estava acostumada. Era uma intensidade momentânea, um brilho estranho que fez meu coração palpitar de forma semelhante à reação que eu tivera com Lumar, mas com uma nuance mais... suave, talvez uma apreensão misturada a preocupação genuína.
O silêncio se estendeu entre nós por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Eu podia sentir a firmeza do seu apoio, a proximidade do seu corpo. Era uma intimidade física inédita, e a sensação era perturbadora e, ao mesmo tempo, hesitante. Aquele disparo no peito ecoava a intensidade da minha reação a Lumar, mas sem a ansiedade e a confusão caótica.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
