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Naquela tarde ensolarada, com uma expressão de dor ele caminhava entre os vendedores ambulantes.
José Manuel era um artista e seu principal combustível era o sofrimento.
Milhares de poemas, romances, contos, composições e crônicas. Em sua vida a arte reinava acima de tudo e todos. Nada era mais importante do que aquilo, mas não havia arte sem sofrimento.
Desde novo José Manuel sentia a necessidade de ter uma vida difícil. "O que vem fácil vai fácil", ele dizia. E o que aquele artista desde jovem queria era ter suas palavras eternizadas.
Se afastou de muitas pessoas que não compreendiam a importância de seu trabalho. Pouquíssimas amizades duraram e suas relações amorosas eram calcadas em brigas. Todo esse sofrimento o alimentava. Foi uma vida difícil, sofrida, mas muito produtiva.
As pessoas o chamavam de covarde, fraco, medroso e egoísta, mas isso não o desmotivou, afinal a arte estava acima de tudo e de todos. Quanto mais velho, mais convicto de seu poder ele ficava.
Imagina só, se agora, aos sessenta e sete, ele olhasse pra trás e deparasse com toda dor que sua omissão em prol da arte causou as pessoas ao seu redor.
Imagina só! A arte tem que justificar tudo isso, não tem outra explicação.
Imagina só se a arte de seu José Manuel fosse apenas uma fuga de uma pessoa covarde que se escondia atrás de palavras para não ter de se confrontar com a dura realidade.
Imagina só se ele fosse realmente um covarde egoísta.