Chamuscante

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Mexi no cabelo, que estava um pouco ondulado. Ajustei com os dedos a franja. Passei um gloss rosado nos lábios. E quando terminei, pelo reflexo do espelho, pude ver, em cima do meu criado, os pingentes presos pela corrente preta. Percebi, então, meu pulso nu, limpo.

Como eu podia me esquecer?

Fui até lá e peguei a pulseira, levantando até perto dos meus olhos. Os pingentes brilhavam com a luz matinal que passava pelo vidro da janela e atravessava as cortinas. Deixei escapar um sorriso nostálgico: quantas lembranças difíceis, quantas lembranças maravilhosas. Perguntava-me se algum dia eu encontraria alguém com uma pulseira igual a minha; alguém que tivesse as mesmas raízes que eu na arte.

Alguém que tivesse conseguido.

Olhei no relógio do meu pulso esquerdo: se eu não saísse agora, ficaria atrasada.

Voltei para a cozinha, pegando as chaves. Coloquei a pulseira no bolso lateral da minha bolsa, que joguei no ombro, e saí do apartamento. No corredor, me virei para trancar a porta, mas no momento em que coloquei a chave na fechadura, ouvi um barulho ao meu lado. Virei-me disfarçadamente e vi uma mulher trancando a porta do apartamento vizinho.

O cabelo loiro-escuro com as pontas tingidas de rosa estavam presos num coque frouxo. O visual despojado: jeans desbotados dobrados nos tornozelos, sapatênis e uma blusa larga e fina dobrada até os cotovelos.

— Tia? — Perguntei, encarando, perplexa, o rosa desbotado das pontas dos cabelos dela.

Giselle se virou rapidamente, tirou os óculos escuros de armação redonda e me olhou sorrindo, com seus olhos azuis brilhando.

— Lynn! — Ela comemorou.

Pulou em cima de mim, num abraço apertado e bagunçado: no estilo dela.

— Finalmente, pensei que teria que invadir a noite de Romance Trágico se quisesse falar com você! — Falei, sentindo minhas costelas sendo esmagadas.

— Ei — ela me soltou, segurando meus pulsos —, isso é só nas segundas. Terça é noite de série — piscou o olho direito, com uma expressão travessa.

— Menos mal — sorri de alívio.

Minha tia era a caçula e ainda beirava os trinta. Toda vez que ela se mexia, fazia barulho. Sua mochila era cheia de penduricalhos, sem falar nas pulseiras que usava nos pulsos, na sicurezza dos óculos e sem falar nas chaves que tinha em mãos, que se batiam umas nas outras e contras os vários anéis que ela usava.

Ela parou sorrindo e me encarou por um instante muito longo, analisou meus olhos, mexeu nos meus cabelos e seu sorriso quase caiu junto com seus olhos que se arregalaram.

— Eu estou superatrasada! — Ela disse, puxando meu braço e olhando no relógio do meu pulso. — Mas ainda bem que te vi! — Comemorou.

Ela enfiou a mão dentro da mochila e de lá tirou uma chave. A chave de um carro.

— Dica: não é minha — ela estendeu a mão, com a chave.

— Não... Você está brincando — eu disse, franzindo o cenho e pegando a chave da sua mão.

— A cidade é grande, a maioria dos jovens tem seu próprio carro. Eu tive uma longa conversa com seus pais, mas eles acabaram cedendo.

— Você é a melhor tia do mundo, sabia? — Disse sorrindo.

Com certeza além de ver vários filmes ela estava lendo muita ficção adolescente. Primeiro dia na cidade nova, na escola dos sonhos, e você ganha um carro da sua tia legal?

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