Capítulo 7

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Mateus

Suspiro e reviro-me na cama. Não me quero levantar e ter de ir para a escola. Abro os olhos a custo e vejo as horas no despertador. Merda. Salto da cama e corro para a casa de banho para tomar um duche rápido. Se chegar atrasado outra vez a stora de economia mata-me. Visto uma t-shirt e uns calções e coloco um boné sobre os meus cabelos molhados enquanto pego na minha mochila. Pego num pão com manteiga e nas chaves do carro e rezo para que não haja transito hoje. Parece que Deus ouviu as minhas preçes pois poucos carros acompanham o meu e conduzo o mais rapido que posso sempre com cuidado para não atropelar nenhuma velhinha. Quando fecho a porta do carro ouço a campainha e corro o mais rapido que posso até a sala. Vejo a stora a começar a fechar a porta e suspiro alto.

Mateus: ESTOU AQUI STORA!

Vejo a stora a revirar os olhos e a abrir a porta por completo e entro rapidamente na sala enquanto murmuro um "Peço desculpa".
Sento-me no meu lugar e tiro o chapéu. Sacudo os cabelos com a mão para não ficarem tão despenteados e começo a tirar o caderno e o livro da mala enquanto olho para os meus colegas. Quando os meus olhos param na secretária ao meu lado paraliso.

Clara.

Ela andava a faltar á cerca de dois meses á escola. Perguntei a toda a gente que eu conhecia se alguem sabia o porquê mas ninguem sabia, nem mesmo os professores e a Matilde, para além de ter andado mais cabisbaixa, mudava sempre de assunto quando eu tentava saber alguma informação sobre a irmã. Não tinha o numero dela e ela não tinha qualquer rede social então não podia sequer mandar mensagem. Pensei em mil e uma coisas que pudessem ter acontecido com ela e todas elas me davam um aperto no peito. Eu amo aquela miúda desde o primeiro dia que lhe pus a vista em cima. Lembro-me como se fosse ontem...

Eu estava no meu primeiro dia de aulas do 5° ano e estava sozinho á porta da sala. Era novo na escola então não sabia muito bem o que fazer. Estava á espera da professora quando ouço um choro baixinho que vinha do fundo do corredor e aproximei-me devagar até a ver. Ela estava com a cabeça baixa e com as mãos na cara e chorava baixinho. Ela usava duas trancinhas adoraveis e um vestido folhado azul marinho com uns sapatos beije com franjas. Nunca soube lidar muito bem com pessoas a chorar então fiquei parado á frente dela sem saber o que fazer até ela levantar a cara e quando vi a cara dela o meu coração falhou uma batida. Os olhos dela brilhavam por causa das lagrimas e a sua pele vermelha por causa do choro contrastava com o azul do seu vestido. Mesmo assim ela era a menina mais linda que eu já tinha visto na vida e se ela não estivesse a chorar eu com certeza ia pedi-la em namoro.    Quando ela me viu, levantou-se rapidamente e limpou as lagrimas.

Clara: Não se pode andar nos corredores enquanto não tocar - a voz dela saiu com falhas e senti pena por um anjo que nem ela estar a chorar no corredor.

Mateus: Sou novo aqui, não sabia... Está tudo b..

Clara: Mas agora já sabes! - ela interrompe-me e desata a correr pelo corredor.

A partir daí o meu coração passou a bater só por ela e a minha paixão só aumentava de dia para dia. Crescemos juntos, sempre na mesma turma. Ela era uma rapariga fantastica. Era humilde, inteligente, divertida e linda. Eu tentava sempre chamar a sua atenção brincando com ela e fazendo comentarios parvos para ela se rir de mim mas ela nunca mostrou querer algo mais que amizade. Ela era muito simpatica para mim, mas era assim com todos. Isso sempre me entristeceu mas nunca desisti dela e apesar de ter sempre miudas atraz de mim e de ser gozado pelos meus colegas por nunca aceitar nenhuma, eu queria-a a ela e eu sabia que um dia seriamo muito felizes juntos.

E hoje ao vê-la sentada na secretaria ao meu lado, depois de 2 meses sem saber o que se passava com ela, um alivio imenso percorreu o meu corpo. Acabei de colocar as coisas em cima da mesa e discretamente olhei para ela. Como ela era linda. Os seus cabelos estavam soltos, havia apenas um pequeno laço branco a prender alguns deles e ela vestia um vestido branco com flores azuis. Espera?! Clara de vestido? Arregalei os olhos em descrença do que estava a ver e por pouco não mandei um berro. Era a primeira vez que a via de vestido desde aquele episodio do nosso primeiro encontro, ou seja, á 6 anos, e isso deixou-me com a pulga atraz da orelha. Ela desaparece 2 meses e quando volta está de vestido, algo que ela não usava há 6 anos?! Algo estava errado e quando a observo com mais pormenor confirmo as minhas suspeitas. Ela olhava para baixo e acariciava a sua barriga carinhosa e discretamente como se estivesse num anuncio de grávidas. Não pode. Estaria ela grávida?! Uma dor enorme criou-se no meu peito, como é q ela podia engravidar de alguém que não fosse eu. Sempre imaginei o nosso futuro juntos e agora ela faz-me isto?! Calma Mateus para de ser desesperado ela não deve estar grávida pode ser outra coisa qualquer. O meu subconsciente tenta acalmar-me mas não consigo raciocinar bem e a necessidade de ouvir a voz dela começa a sufocar-me.

Mateus: Olá - ela retira a mão da barriga suavemente e vira a cabeça na minha direção. O sufoco só aumenta quando vejo os olhos dela, aqueles dois pedacinhos de chocolate como eu sempre os chamei pareciam dois pedaços de carvão de tão escuros e sem brilho que estavam. Quis levantar-me e abraça-la mas o meu corpo paralisou. Só voltei a respirar quando a ouvi.

Clara: Presta atenção á aula Mateus.

Sorri com a sua frase. A minha Clara ainda estava ali, sem o brilho nos olhos e a alegria ao seu redor mas era ela. A mulher que eu amava. Só voltei a olhar para a frente quando ela se virou para a stora e começou a apontar algo no seu caderno. Esperei a aula passar sempre a pensar no que eu lhe diria no intervalo. N podia parecer muito desesperado. Quando ouço o toque de saída saio do meu transe mas quando olho para o lugar da Clara ela já não está lá. Arrumo as minhas coisas o mais rapido que consigo e apresso-me pelo corredor. Para quando vejo a cena á minha frente. Ele vai apanhar.

Ironias do destinoOnde histórias criam vida. Descubra agora