Ao soar o sinal do fim de aula, todos os alunos correram em disparada, derrubando as carteiras. Essa era uma das coisas que Melissa nunca entendia no universo escolar. Era compreensível a pressa de ir embora, mas precisava agir como se fosse um estouro de vacas?
Eles se amontoavam e se espremiam na porta da sala, apenas para se amontoar e se espremer ainda mais em meio à manada ensandecida que entupia os corredores do prédio. Bizarro.
Enquanto todo mundo se empurrava, a menina assistia ao espetáculo sem sair do lugar. Colocou os fones de ouvido e escolheu uma playlist de rock gótico no Spotify pelo celular. Quando as passagens desentupissem, caminharia sem muita pressa até o pátio. Afinal, seu ônibus demoraria um pouco a passar, então podia se dar ao luxo da tranquilidade.
Mas dessa vez ela não foi a única a esperar o fim do engarrafamento de adolescentes nos corredores. Alexandre, um dos garotos mais populares da sala – ou do colégio – também ficou ali, sentado.
Os motivos da popularidade de Alexandre eram um mistério para Melissa. Ele não era inteligente, não era atlético, não tinha um vocabulário muito invejável e não era tão bonito assim. Bem, talvez fosse um pouco acima da média, com seus traços finos e seu jeito desleixado, que lhe dava um ar divertido de confiança. Mas não fazia sentido tanta gente querer beijar aqueles lábios finos, quase inexistentes.
Óbvio, Melissa não era uma referência no que diz respeito à opinião sobre beleza masculina. Mas apesar de ser lésbica e demissexual, ela entendia um pouco de sex appeal, independente do gênero. E não via motivos para que tantas meninas fossem caidinhas por aquele cara.
Alexandre estava sentado no fundão da sala, meio desengonçado, com as pernas jogadas bem à frente, quase deitado na cadeira. Aquilo devia ser péssimo para a coluna, pensava Melissa. Os pés dele mexiam de um lado para o outro e a caneta em sua mão tamborilava na mesa, como se estivesse impaciente. Quando a quantidade de alunos nos corredores diminuiu, levantou-se de supetão, jogando a carteira para trás.
Melissa se assustou e quase deixou o celular cair da mão. Estranhou ainda mais que o rapaz veio em sua direção, oposta ao rumo da porta. Ele puxou uma outra carteira de modo igualmente brusco e sentou-se todo largado ao lado dela. Sem encará-la, tamborilando a caneta na perna de ferro da cadeira, pigarreou.
– Então, garota...
– Melissa. – Ela adorava deixar pessoas que iniciavam conversas indesejadas ainda mais sem graça quando estavam nitidamente tímidas.
– Melissa. É, eu sei. É um nome bonito.
– Obrigada.
– Tipo aquela sandália. Melissa.
Não houve resposta. Ela sabia quando alguém tentava ser gentil de um jeito burro, mas na dúvida entre retribuir com um sorriso falso ou dar uma resposta grosseira, preferiu ignorar.
– Bem... – Alexandre pigarreou de novo – Tipo, eu tava pensando...
– Desculpa, mas...
– Hm?
– Essa caneta... o barulho está meio irritante.
– Ah, sim. Desculpe. Bem, o que eu queria era saber... tipo... o que você acha, tipo, se a gente saísse juntos... sabe? Pra se conhecer melhor e tal...
Melissa não sabia o que achar mais incrível: o fato da caneta continuar batendo frenética no metal da cadeira ou o convite mais inusitado que já havia sido feito em toda a história de todos os segundos anos colegiais noturnos. Como que o cara mais popular do colégio tá me dando bola, meu Deus do céu? Aposto que se eu curtisse homem isso não estaria acontecendo.
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Morte, o Intervalo da Vida
Novela JuvenilMelissa não tinha muitas perspectivas na vida. Nem na morte. Após perder sua melhor amiga em um acidente misterioso, carregou a culpa por ter dito aquelas últimas palavras. Uma doença cardíaca trouxe, então, a morte súbita que encerrou a breve est...
