Capítulo 11: A partida

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Já estava trancada no banheiro chorando a duas horas quando minha mãe finalmente veio me ver.

A mala estava vazia sobre a cama.

_Ann? Querida?

Me levantei do chão lavei bem o rosto e sai. Me sentei na cama e encarei a mala vazia.

_Oi mãe.

Ela veio se sentar junto a mim, me olhava com uma feição triste em seu rosto.

_Tudo bem com você querida?

_Tudo sim, me desculpe ainda não ter aprontado as malas, já vou terminar, prometo.

Ela tomou meu rosto nas mãos e me olhou fundo nos olhos.

_Gostaria de me explicar sobre o que aconteceu com Crail mais cedo? E o motivo de todo esse choro?

Foi como se uma barragem se rompesse em mim. Chorei até em seus braços pelo que pareceu uma eternidade. Quando finalmente acabei minha mãe me observava aguardando uma explicação.

_Eu beijei o Crail.

Seus olhos se arregalaram.

_Foi? E como foi?

Agora eram os meus olhos que se arregalaram.

_Como assim como foi? Isso não importa, foi errado e eu nunca devia ter feito isso, só complicou as coisas, ela já está modificando o próprio corpo e agora depois do beijo vai ser tudo mais difícil.

_O que você quer dizer com modificando o corpo?

_Exatamente isso mãe, ele aprendeu uma forma de mudar a aparência, queimar ou algo assim e ele desmaia de dor mãe, algumas coisas já mudaram, como os olhos, a cor da pele, até as mãos dele já estão diferentes. E ele está fazendo isso por mim, mais ele não devia, não pode.

_E porque não filha? Se o que você diz é verdade, isso só mostra o que todos já sabíamos, que ele está apaixonado por você, não deveria ser algo ruim.

_Como não mãe? Você não acha estranho? Errado? Ele não deveria ter que mudar, nenhum de nós devia, não teria como dar certo mesmo que ele mudasse completamente.

_Mais ja tem funcionado filha, vocês têm estado juntos por mais de um ano, vocês passam mais tempo um com o outro do que separados, e eu acredito que somente é errado se um dos dois não sentisse o mesmo, e eu desconfio que esse não é o caso.

Ela me encarou por um instante.

_Você o ama filha? Por que eu acredito que sim, e se for o caso, não há nada de errado.

_Sim mãe, eu amo sim o Crail, e já o amo a um tempo, acredito que também o amo desde sempre.

A dor ameaçava voltar, eu precisava deixar isso para trás, ir a frente com minha vida, só assim superaria tudo isso. Jamais esqueceria, e duvido que um dia deixe de ama-lo, mais era melhor assim. Eu na terra, ele no mar.
Me levantei decidida e comecei a empacotar minhas coisas cuidadosamente nas malas. Minha mãe me observava em silêncio, mais ela não precisava dizer nada. Estava tudo estampado em seu rosto.

_É para o melhor mãe, já me decidi. Ele precisa seguir e eu também e eu jamais vou conseguir fazer isso estando aqui tão perto.

_Mais Ann...

_Não mãe, já é hora, acho que quero ir finalmente começar uma faculdade.

Ela estava triste, não concordava com minha decisão, mais me apoiaria mesmo assim.
_O que você decidir minha pequena, estou contigo, mais saiba que eu acho que você encontraria muito mais o que está buscando aqui, e não la fora.

Já ia começar a argumentar como já havia feito minha escolha quando ela me calou com um dedo.

_Porém se é disso que você precisa, é  exatamente isso que faremos, você decide.

A abracei tão forte que pensei que nos fundiriamos em uma.

_Obrigado mãe, eu te amo.

_Tambem te amo querida. Vamos, me deixe te ajudar com essas malas.

Empacotados tudo e fizemos as malas, ao fim do dia fomos todos até a praia, a rainha Malin estava lá com alguns de seus Muruins, inclusive Crail. Desde o minuto em que pisara na praia, sentia seus olhos sobre mim, como algo cortante, estava ciente da sua presença a todo instante. Mais em nenhuma vez olhei para ele. Não conseguia.
Fomos até a água a uma distância onde conseguíamos estar na altura deles e nos despedimos de cada um com abraços, nos tornamos todos muito próximos, e finalmente a rainha Malin nos aceitou como parte de um dos seus, tínhamos sua proteção no mar assim como havíamos os protegido em terra, ela é minha mãe se tornaram muito próximas e minha mãe chorava descaradamente durante o abraço das duas, Malin sempre rindo do emocionalismo de mamãe, afinal ela se veriam sempre daqui a três meses, ao contrário de mim, eles planejavam voltar e montar uma base fixa aqui. Apenas para tratar com os mútuos e se ajudar em questões ambientais e sociais, tentando de alguma forma aproximar as duas raças, pelo menos esse era o plano.
Depois de dar rápido abraço em Malin me deparei com Crail bem em minha frente, estendi a mão para ele que a encarou com mágoa em seus olhos. Ele a apertou com carinho e mergulhou partindo cada vez mais fundo no mar.
Malin se aproximou novamente.

_Crail é jovem, e o amor cega os homens, ele vai superar, vocês dois devem, cada um merece um parceiro que lhe compete. Você tomou a decisão correta. Eu agradeço.

Apenas acabei, incapaz de falar ou voltaria a chorar e dessa vez talvez não parasse mais.
Caminhamos até o carro de la voltaremos até nossa casa na Califórnia. Eu me increveria para a faculdade e pela primeira vez na vida, sabia exatamente o que queria ser.

_Professora?

_Sim pai, quero fazer pedagogia, a cada dia com Crail dando aquelas aulas, mais me encantava com a sede de aprender e com o prazer que eu sentia em ensinar, se eu puder proporcionar esse prazer para outras crianças, para mim já vai ser perfeito.

Se eu já não tivesse certeza sobre mimha escolha, o olhar de orgulho dos meus pais seria o suficiente para reafirmar o que eu ja desejava.

Me peguei olhando para o mar toda a hora, dentro do carro no avião e novamente no caminho até nossa casa.
O cheiro de mofo foi a primeira coisa que senti, e logo depois uma crise alérgica por causa de todo o pó acumulado ali por tanto tempo.
Papai abraçou a nos duas que nos entreolhamos sem muita coragem de encarar a faxina.

_Vamos lá garotas a gente da conta.

E lá se foi ele casa a dentro, não havia nada o que fazer a não ser segui-lo. E foi assim que passamos as próximas 6 horas, limpando, limpando, e limpando. Jantamos pizza aquela noite, nenhum de nós com capacidade de encarar a cozinha para preparar algo.

Então nos sentamos ao sofá e de algum modo acabamos rolando fotos pelo projetor do ano e meio em que passamos com os Muruins.  A cada foto a ferida em meu peito crescia e crescia. Haviam muitas fotos de mim e Crail, em algumas eu o abraçava, em outras fazia chifrinhos em sua cabeça enquanto ele não estava vendo, em uma delas logo a sequência mostrava ele me descobrindo e me derrubando da prancha, acabei rindo em meio às lágrimas, mais em algumas nós não sabíamos que estávamos sendo fotografados, e em todas elas eu olhava algo ao longe no horizonte enquanto Crail olhava para mim, era estranho velo assim pelas fotos com um ar tão sonhador, tão apaixonado me observando sem que eu notasse.

Aquilo me atingiu profundamente, não aguentando mais, corri até meu quarto e me tranquei la, pouco depois minha mãe bateu na porta, porém ao ver que eu não a respondia, acabou me deixando sozinha, e sem saber porque, apanhei meu diário e comecei a escrever, não um relato mais uma confissão, todos meus pensamentos e sentimentos expostos naquelas páginas, e quando dei por mim o pequeno caderno estava com quase todas as páginas ocupadas por minha mais profunda declaração de amor para ele.
Apanhei o pequeno caderno e o escondi bem fundo em uma gaveta. Ele ficaria ali onde não poderia causar mais dor.

Voltei para cama me enrolei até o pescoço e prometi para mim. Apartir de amanhã o planejamento começaria, e só isso iria importar, nada mais iria me distrair. Ou eu com certeza enlouqueceria.

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⏰ Última atualização: Sep 10, 2019 ⏰

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