Era o dia do baile e eu estava nervoso. Sabia que pra ela ia ser a mesma coisa de sempre, mas pra mim, não.
Eu sabia que minha concepção sobre ela havia mudado.
Eu via ela como bem mais do que como uma amiga.
O que mais doía é saber que eu percebi isso tarde demais e a perdi.
Fui deixado para escanteio, segunda opção. No caso, eu era literalmente a segunda opção dela.
-Filho, você colocou o paletó?
-Fala sério mãe, ninguém vai de paletó.
-Você vai.
Ela chegou por trás de mim, e depois se colocou entre mim e o espelho no qual eu estava me olhando, e me entregou o paletó vermelho.
Deu um suspiro e um sorriso triste antes de continuar a falar:
-Tão igual ao seu pai. Ele estaria orgulhoso do garoto que você está se tornando.
Ela estava com os olhos cheios de lágrimas, já que ainda era um assunto delicado pra ela. Eu tentava ser forte, ser o melhor de mim. Peguei na sua mão e disse:
-Ele está melhor lá, mãe. E pode ter certeza, ele continua olhando pra cá e cuidando de nós. Sempre.
Ao ouvir isso, ela desatou em lágrimas.
Cinco anos e ela ainda sofria.
Nunca se supera a dor de uma perda, mas ela se ameniza.
Cada dia fica um pouco mais fácil.
Eu era muito novo quando ele foi. Com onze anos eu não tinha ideia de nada. A vida era uma brincadeira, até o dia em que seu coração simplesmente resolveu parar, e ele se foi.
Na época, eu não entendia, não aceitava.
Minha mãe, muito menos.
Meu irmão mais velho ficou tão abalado que se mudou, pra se afastar dessa cidade que o lembrava dele. Minha vó veio morar conosco, e minha mãe seguia desolada.
Hoje, ela está conseguindo se reerguer.
Quase consigo ver nela aquela mulher alegre e sorridente que era quando meu pai estava aqui.
Ela percebeu que seguir a vida era o que ele gostaria que fizéssemos, e foi o que eu fiz.
Me tornei o homem da casa, e o porto seguro da minha mãe.
-Mãe, calma. Lembra do quê ele dizia, né? Pra não desistir nunca, independentemente da circunstância.
Ela respirou fundo, enxugou as lágrimas e fechou os olhos, como se concentrasse pra falar.
-Certo, certo. Bom, vamos terminar de te arrumar. Ouvi falar que o seu par odeia atrasos.
Dei uma risada baixa e concordei. Ela saiu da frente do espelho, depois do quarto e voltou com um par de all-stars pretos.
-De onde isso saiu?
-Seu irmão mandou semana passada, quando ficou sabendo do baile. Disse que está com saudades nossas e da vovó.
-Quando ele vem?
-No natal! Transferiu todas as folgas dele pro fim do ano e vai ficar dois meses.
Essa informação me animou como nada havia conseguido me animar em semanas. Eu não o via haviam 2 anos.
Ele morava em Ottawa, no Canadá, onde já tinha um apartamento, uma namorada e um emprego. Ele estava muito feliz.
Peguei o sapato da mão da minha mãe e calcei. Imediatamente peguei meu celular, que estava em cima da cama pra mandar uma mensagem agradecendo.
Finn
Aí mano, tudo certo?
Nick💩
E aí, garotão? Tudo certo sim. Hoje é o grande dia, hein?
Finn
Exatamente por isso te chamei. Valeu pelo tênis, eu adorei.
Nick💩
Imagina, cara! Vi em uma loja por aqui e pensei em você na hora, não tinha como não comprar.
Finn
Obrigadão mesmo. Agora tenho que ir, a Millie odeia atrasos.
Nick💩
Bom baile! Depois vê se me conta como foi!
Finn
Beleza, até mais!
Guardei o celular no bolso e me encarei no espelho. Cachos bem bagunçados, paletó velho e tênis novo. É, tudo em ordem.
Minha mãe seguia parada ao meu lado, observando meu quarto.
Quando seus olhos passaram pelo despertador preto em cima do meu criado-mudo, virou abruptamente pra mim e começou a disparar um monte de informações direto na minha cara.
-Filho, se apresse! Tem que comer, escovar os dentes, arrumar esse cabelo, tirar umas fotos pra mandar pra tia Janice, e passar buscar a Millie.
Dei uma estremecida ao ouvir o nome dela. Droga.
-Calma, mãe. Eu sou muito ágil, faço isso em 5 minutos.
Dito e feito. Pouco depois, já estava dentro do carro, esperando minha mãe buscar a chave e mexendo no celular.
Se eu dissesse que não estava nervoso, estaria mentindo.
E muito.
Eu não sabia como reagiria ao ver a Millie e ter que fingir que nada aconteceu. Mas eu ia ter que tentar, afinal, nossa amizade se manteria igual, certo?
Levei um susto com o barulho da porta do motorista fechando.
-Penteou esse cabelo, garoto?
-Mãe, quantas vezes eu vou ter que te explicar que cachos bagunçados são meu charme?
Ela deu risada, estendendo a mão pra bagunçar mais ainda meu cabelo e em seguida, saindo da garagem.
-Só você pra me fazer rir depois de tanta coisa que a gente já passou, filho. Só você mesmo.
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unbroken; fillie
Romancedizem que por trás de todo grande amor existe uma grande amizade. mas e se fosse ao contrário?
