Agosto;2018- part. 02

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•The Vineyard Lounge; Milton, OR

•Play: Billie Eilish- Ocean Eyes

Depois de umas duas garrafas de alguma bebida que eu nem lembrava mais qual era, eu já estava mais longe de mim mesmo do que nunca.

Tudo girava e eu estava enjoado e perdido. Não sabia se eu estava no meio da pista ou da rua.
Mesmo assim, me senti mais livre, mais leve. Como se pudesse fazer qualquer coisa, ser quem eu quisesse.

Aparentemente, a bebida abre a nossa cabeça e nossos olhos. Nos torna quem gostaríamos de ser, e ao mesmo tempo, nos distancia de quem realmente somos.
Mas, afinal, esse era meu objetivo em ir estudar fora, não era?

De repente, uma voz rouca se dirigiu a mim, se destacando por cima do som alto.

-E aí, Romeu? Tá se divertido?

Erica se aproximou de mim, rindo e dançando ao som de uma música eletrônica qualquer.
Usava um vestido preto absurdamente colado, que destacava todas as suas curvas e um tênis brilhante da mesma cor.
Ela parecia mais animada, e definitivamente, estava bem melhor do que eu.

Respondi, tentando não me irritar com o nome citado na frase dita pela garota na minha frente.

-Sei lá, acho que sim.

-Já esqueceu aquilo que você tava tentando esquecer? Porque se não conseguiu, eu posso te ajudar.

-Na verdade, não.

Minha voz saiu fraca, e eu ofegava. Pela primeira vez desde o início da minha bebedeira, lembrei da Millie. Isso mexeu tanto comigo que mudei de humor em questão de segundos.

Quando fui continuar a minha resposta, fui elevando o tom da minha voz, e acabei gritando com a garota à minha frente no meio da pista de dança, com algumas lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas coradas.
As pessoas ao nosso redor me encaravam, mas eu realmente não me importava.

-Eu só queria não lembrar dela! O que eu faço, Erica?

Ela se aproximou e se apoiou na ponta dos pés, ficando literalmente de frente pra mim. Estávamos tão próximos que eu conseguia sentir a ponta do meu nariz encostando no dela e ver dentro de seus olhos azuis brilhantes, assim como sentir sua respiracão pesada e o cheiro suave de álcool que ela exalava.

-Bom, você eu não sei. Já eu, tenho plena certeza do que estou fazendo agora.

Depois de dizer isso, largou o corpo pra frente, enterrando suas mãos nos meus fios pretos e juntando nossos lábios e corpos.

Primeiro, fiquei sem reação. Depois, pensei: ela é bonita, legal e solteira. Por quê não?
Decidi me jogar de cabeça no momento, esperando que aquele beijo me fizesse esquecer da garota por quem eu era apaixonado, que estava à milhares de quilômetros de mim.

E foi assim que mergulhei de vez naqueles olhos de oceano, no meio de uma festa qualquer em Milton. Obviamente, naquele momento eu não tinha ideia que acabaria me afogando.

.

Acordar naquele domingo depois da festa foi quase impossível.
Quando eu finalmente consegui, fui surpreendido por meus amigos, amontoados em cima de mim.

-Bom dia, princesa!

-A gente tava achando que você não ia mais acordar!

Olhei pra eles, e depois pro relógio de pulso que o Malcolm sempre usava. Já eram duas da tarde.
Voltei meu olhar pra eles antes de continuar a falar:

-Eu preferia não ter acordado! Minha cabeça tá latejando!

Eu nunca tinha bebido ao ponto de esquecer o que tinha feito.
-Feliz ressaca, irmão!- disse um Jack com a boca toda manchada de batom rosa.

Levantei do sofá onde estava deitado, indo em direção ao espelho que havia no corredor do nosso apartamento. Eu estava acabado.

Meu cabelo quase não tinha mais cachos de tão bagunçado que estava; minha blusa (a mesma utilizada na noite anterior), se encontrava toda amassada e levemente úmida, cheirando à bebida; minhas olheiras podiam ser vistas do outro lado do país. Mas o que realmente chamava a atenção era uma grande marca redonda, colorida por uma mistura de lilás e vermelho localizada no meu pescoço. Acho que nem preciso dizer o que era, né?

Meus amigos logo chegaram por trás de mim, fazendo um escândalo ao ver aquilo roubando uma parte da minha nuca.

-EU NÃO ACREDITO! CARA, QUEM FEZ ISSO?

-Malcom, eu não sei.

-Você lembra de ter ficado com alguém?

Fiquei meio envergonhado ao responder. Pra começar, essa era a única coisa que eu lembrava ter feito na festa, além de beber horrores. Depois, eu fiquei meio constrangido de falar pros meninos que fiquei com a Erica, que era tão próxima deles.

-Hm, que eu lembre, uma menina só.

-Quem?- os dois perguntaram em uníssono.

Desisti de tentar desviar do assunto. Depois de tudo que eu passei com a Millie, percebi que não é muito bom esconder as coisas das pessoas. Virei de costas pro espelho, a fim de encará-los diretamente.

-A Erica.

-Ah. Posso te dizer que não fiquei surpreso?

A tranquilidade com a qual o Jack falava me surpreendia. Se esse tipo de conversa fosse tida com meus amigos de Portland, eles estariam todos surtando.

-Como assim?

-Ah, sei lá. Vocês se dão muito bem, sabe? Uma hora algo teria que rolar.

Eu realmente vivia em outro mundo. Isso seria muito absurdo de se pensar, se eu estivesse em casa.
Mas infelizmente, eu não estava.

-E a situação daqui pra frente, como fica?- perguntou o cacheado na minha frente.

Fiquei pensando. Eu não via a Erica como mais do que uma amiga, mas imaginei que ela poderia se tornar a garota certa pra mim e me ajudar a esquecer uma pessoinha específica.
-Acho que vou deixar rolar. Mais ferrado na vida amorosa eu não consigo ser, podem acreditar!

Demos risada, enquanto seguíamos em direção à cozinha.

-Finn, o negócio é o seguinte: você vai colocar uma colher gelada aí pra ver se diminui o estrago.

Olhei pra ele com as sobrancelhas arqueadas e um sorriso malicioso no rosto.

-Pelo visto você entende do assunto, né Jack?

Ele ficou meio vermelho enquanto abria o freezer e tirava de lá uma colher quase congelada, que estendeu pra mim.
-Eu diria que entendo um pouco, sim.

Peguei o objeto e pressionei contra meu pescoço. Isso tinha que funcionar.

Malcolm revirou os olhos, dando um sorriso.
-Ainda bem que eu não faço essas coisas. Agora eu sosseguei, meus caros!

-Você fala como se tivesse uma vida amorosa muito agitada antes de começar a namorar!- Jack provocou, erguendo a sobrancelha direita e abrindo um sorriso debochado.

-Respeita o movimento, Jack! Pelo menos eu não passo o rodo que nem certas pessoas!- o cacheado ao meu lado fingiu uma tosse, virando a cabeça para o melhor amigo, que o encarava, tentando não rir.

Saí da cozinha dando risada dos dois, os deixando terminar sua discussão madura.
Voltei a pensar na Millie. Eu sentia muita falta de ter uma melhor amiga pra conversar, me divertir, ou até mesmo ter essas briguinhas bestas.
Quando dei por mim, estava sorrindo sozinho, com aquela colher gelada no pescoço e muita saudade da minha pessoa preferida no mundo me invadindo novamente.

unbroken; fillieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora