Julho, 2017- part. 01

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▪ Aeroporto Internacional de Portland

As aulas finalmente terminaram e o dia da nossa partida para São Francisco chegou.

Estávamos no aeroporto com nossas famílias, perto do grupo de viagem que iria nos acompanhar, e ouvíamos recomendações clássicas dos meus pais, irmãos e da avó e mãe do Finn.

De repente, minha mãe disse:
-Finn, cuida da Millie, tá?

Revirei os olhos. Ela achava que eu não sabia tomar conta de mim mesma? Finn obviamente percebeu minha chateação e não perdeu a oportunidade de tirar sarro.

-Pode deixar, Kelly! Nada vai machucar sua menininha.

E, dizendo isso, apertou minhas bochechas como se eu fosse uma criança.

Depois, foi a vez da mãe do Finn falar, rindo:
-Mas você vai ter que aprender a cuidar de si mesmo primeiro, né filho?

Não conti uma gargalhada. Ele me olhou com cara feia e depois encarou a mãe, emburrado.

-Meu Deus, se apressem! Vocês vão perder o avião!

-Calma pai, falta uma hora ainda!

A verdade é que eu estava assustada, afinal, nunca tinha andado de avião antes.

-Ele tá certo, Mills. A gente tem que ir pro portão de embarque.

Engoli em seco, tomei coragem e me despedi da minha família.

Nos juntamos ao grupo de viagem e entramos no grande saguão cheio de cadeiras e pessoas esperando que era o salão de embarque.

Finn é a pessoa que me conhece melhor no mundo inteiro, então de cara percebeu o quão tensa eu estava.

-Millie?

-Oi.

-Você tá quieta. Tá tudo bem?

Virei pro outro lado, fingindo estar muito interessada no chaveiro pendurado na mala de uma moça que passava ao meu lado.

-Hm, tá sim. Tudo ótimo.

-Millie Bobby Brown, eu te conheço, para de mentir.

-Ah. Eu só tô meio assustada, nunca andei de avião antes.

Finn ficou me encarando, como se me estudasse.

-Tudo tem uma primeira vez, não é?

Dei risada do conselho. Clichê, mas verdade.

Clichês me perseguem.

Disso eu não tinha dúvida.

A Millie estava assustada com o fato de ter que andar de avião, e eu não sou bom em dar conselhos.
Mesmo assim, eu dei meu melhor.

-Finn... e se o avião cair?

-Millie! Para! É totalmente seguro! E se você ficar com medo pode segurar minha mão.

Ela ergueu o olhar para conseguir me enxergar (eu sempre fui mais alto) e percebi que ela já estava mais calma.

De repente, um garoto de cabelos enrolados, olhos azuis e um sorriso engraçado se aproximou.

-Oi! Eu sou o Gaten!

Olhei pra Millie. Ela era péssima em falar com estranhos e parecia estar entrando em pânico internamente, então tomei as rédeas da situação.

-Oi, Gaten! Eu sou o Finn, e essa é a Millie.- disse, apontando para a garota escondida atrás de mim.

-Muito prazer em conhecer vocês. Estão indo pra São Francisco também?

Aquela conversa se estendeu por longos minutos. Até Millie participou, perguntando para Gaten sobre aviões, ao descobrir que ele já havia viajado em um.

Quando embarcamos, Millie começou a tremer. Peguei na mão dela e tentei acalmá-la.

-Mills! Não se preocupa, eu estou com você. Se estiver com medo pode apertar minha mão.

Pela força com a qual ela quase esmagou meus ossos da mão, presumi que ela estava bem assustada.

Dez minutos depois da decolagem, senti um peso no meu ombro.
Pois é, ela dormiu.
Sorri ao constatar o quanto aquela garota me fazia bem. Uma criatura tão doce e inocente quanto se pode ser.

Agradeci em silêncio ao "senhor destino" por ter colocado-a na minha vida.

Nesse mesmo pensamento, acabei adormecendo e só acordei quando estávamos a quilômetros dali...



▪Aeroporto Internacional de São Francisco, CA

Acordei sentindo alguém cutucando meu ombro, e desorientada, disse:
-Mais cinco minutos, mãe, por favor!

-Millie, sou eu, o Finn. A gente chegou em São Francisco.

Naquele momento eu despertei de vez. Olhei pela pequena janela do avião, que estava sendo direcionado para a sua devida plataforma de estacionamento.

Direcionei o olhar para meu melhor amigo, que estava com os cachos mais bagunçados do que o comum e uma cara de sono.

-Nossa, Finnie! Você tá ótimo!

-Que engraçada. Ei, já pode soltar o cinto, palhaço Tampinha!

Fiz uma carra de braba e joguei o meu travesseiro de pescoço na cara dele, que reclamou e me jogou de volta junto com o travesseiro do avião, começando uma pequena guerra de travesseiros, interrompida pela aeromoça pedindo se não íamos desembarcar.
Nos distraímos e acabamos esquecendo de levantar e ir embora. Ou seja, éramos os únicos passageiros a bordo.
Demos risadas nervosas, pegamos nossas coisas e saímos correndo e segurando o riso.

Foi só chegar ao portão de desembarque que caímos na gargalhada, sem se importar com as pessoas ao redor olhando feio.

-Olha lá o nosso grupo!

-A gente vai se perder se não for atrás deles, vamos logo!

Eu sempre fui a sensata da amizade, obviamente.
Acho que se dependesse do Finn, a gente teria passado nossas férias por ali mesmo, sentados no chão de carpete comendo as bolachas que pegamos com a aeromoça no meio do vôo para "reabastecimento" do nosso estoque de lanches.

Tive que tentar puxar ele, não obtendo sucesso. Sempre fui bem mais baixinha e mais fraca, então não consegui fugir de uma piada sobre a minha altura.

-Não sabia que smurfs lutavam boxe. Ou tentavam lutar.

-E eu não sabia que avatares faziam cosplay de estátua humana.

-Tá, você venceu, vamos logo.

Sorri, vitoriosa, enquanto caminhava pelo largo corredor do aeroporto, me espremendo entre as pessoas e pensando.
Acho que não é todo dia que se vence em uma discussão madura como essa. Na verdade, no nosso caso, é todo dia sim. E eu sempre venço.

unbroken; fillieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora