"Minha velha avó costumava dizer que um amor nascido no verão derrete com as neves do verão, mas que um amor nascido no inverno dura para sempre."
Mully [adaptado]
***
Jon e os exércitos partiriam em poucas horas para o Sul. Daenerys voaria bem depois com os dragões, porém, ainda chegaria primeiro que todos à Capital. Os exércitos levariam mais de vinte dias de viagem, contando o tempo em terra e o tempo no mar. Talvez levassem mais que isso, já que a escuridão impossibilitava a contagem dos dias.
— Recuperaremos Missandei. — Cheia de angústia e fúria, Dany havia prometido à Verme Cinzento assim que recebeu o corvo de Theon e Yara Greyjoy avisando sobre a traição que havia sofrido.
O imaculado não esboçou nenhuma reação, apenas fez um sinal de cabeça. Era um ser humano frio, mas Daenerys sabia que ele estava sofrendo e que sua fala significava muito para ele.
— Tyrion a traiu outra vez. — Jon foi tomado pela raiva — Sequestrou Missandei e quer a cabeça de Ellaria como pagamento... Não negocie com ele, Dany! É perigoso.
Ela estava com o olhar sombrio quando respondeu.
— Um dragão não negocia.
Jon ficou ainda pior depois da notícia da traição de Tyrion Lannister. Não parava nem um segundo, mantinha-se sempre trabalhando. Quando parava para comer, todas as imagens da guerra voltavam à sua mente, então seu estômago embrulhava e a comida não descia mais. Quando tentava dormir, tinha pesadelos em que matava Beric, Thoros, Davos e Tormund outra vez. Despertava desesperado, sentindo a bile na garganta e então saía da cama e procurava algo para fazer.
Daenerys entendia sua dor, pois também era a dela, mas sentia falta de sua companhia. Sentia-se mal e com medo, como quando estava penando no deserto. Nenhum dos dois estava bem, o luto os corroía, deixando-os doentes.
— Eu sou o sangue do dragão e devo ser forte. — Repetia para si mesma, hora após hora — Eu devo ter fogo em meus olhos quando enfrento meus inimigos, não lágrimas.
Horas antes da partida, Dany foi procurar por Jon no bosque sagrado. Ele sempre ia lá para pensar. O viu de longe, como um borrão negro parado em frente ao represeiro. As folhas vermelhas vibravam com a ventania fria acima dele.
Jon se virou quando percebeu a aproximação dela e trocaram um breve olhar triste. Ele ofereceu um sorriso quase imperceptível à ela, mas que carregava a mesma ternura de sempre.
Daenerys foi devagar até ele, passo a passo, sentindo a alma quebrada. Não recordava a última vez que estivera com tanto medo. Estava angustiada por Missandei e magoada com a traição de Tyrion. Além disso, metade de seus exércitos havia morrido, incluindo seu amado Jorah, sua maior fortaleza. Preocupava-se com Drogon, que mal se alimentava naquele frio, e com Viserion, que carregava o toque da morte em seus olhos. Temia, ainda por cima, pela vida do filho que carregava, pois não se sentia bem e os sonhos com Quaithe e com a Casa dos Imortais não paravam de atormentá-la.
— Jon... — Foi tudo que ela conseguiu sussurrar ao estar à frente dele, pois não choraria, não podia se permitir. Apenas suplicava em pensamentos que ele entendesse.
O rosto de Jon estava tenso quando ele estendeu os braços. Ela quase correu para ele, adentrando com suavidade em sua capa negra, tentando não demonstrar o quanto desejava abraçá-lo e sentir um pouco de amparo. Ele a segurou bem junto ao peito, tanto que ela podia ouvir seu coração batendo.
— Se nada disso estivesse acontecendo, poderíamos ficar aqui por mil anos. — Disse ele — Erguer enormes muros, não ver ninguém e nunca mais voltar.
Dany se afundou ainda mais em seu abraço.
— Seria muito bom não ter de lutar...
— Sim... — O sussurro dele era um sopro quente em seu pescoço — Certa vez, perguntei a Beric pelo que ele lutava. Ele disse que lutava pela vida. Disse que a morte é o grande inimigo.
— Mas todos morremos um dia.
Jon a apertava nos braços, desejando não ter de soltá-la em alguns instantes.
— Foi o que eu respondi na época. E ele me disse que o inimigo sempre vence, mas que ainda assim nós temos que lutar contra ele.
Dany não se sentiu melhor ao ouvir isso, mas sabia o que Jon queria dizer. A morte nunca era derrotada. Os humanos lutavam por mais tempo de vida, apenas isso. Por essa razão, eles não podiam se abater, pois ainda haveriam de lutar para viver um pouco mais.
— O que estava fazendo antes de eu chegar? — Perguntou Dany, erguendo a cabeça para olhá-lo — Preces?
Ele balançou a cabeça em negativa.
— Quando vim aqui, logo após a guerra, pensei em fazer uma prece. — Ele sussurrou em tom grave — Então vi os corvos nos galhos. Estavam comendo restos de homens mortos. Os galhos sagrados estavam salpicados de sangue.
Dany sentiu um frio na espinha ao imaginar. Jon, contudo, colocou a mão com delicadeza sobre a bochecha dela e o mal estar se foi com seu toque terno.
— Não faço mais preces aqui. — Disse ele, olhando-a com seus olhos intensos sob sobrancelhas muito negras e espessas — Não creio mais na bondade dos deuses, Dany. Não depois de ter caminhado sobre o mar de cadáveres, recolhendo pedaços humanos para uma pira de fogo. A Mulher Vermelha estava certa. Os deuses antigos não estavam conosco naquela noite.
Dany sentiu um ar sinistro circular ao redor deles. O rosto esculpido na árvore-coração pareceu mais retorcido de repente, com sua seiva ainda mais escarlate.
— Por vezes, são as preces que sustentam os homens de pé nos dias de horror. — Disse ela.
Jon deslizou o polegar por baixo do olho dela, como se retirasse uma lágrima invisível.
— Meu amor por você será minha prece.
O coração de Daenerys se aqueceu ao ouvi-lo.
— Quando eu empunhar a espada outra vez, o farei para vê-la de novo. — Disse ele, acariciando seus cabelos de prata com as pontas dos dedos — O meu amor por você é uma prece, Dany, é a única prece que conheço.
Ela sentiu um breve sorriso querendo se formar em seu rosto. Quando Jon a beijou, o toque macio dos lábios dele foi dissolvendo devagar o nó de sua garganta. Dany ergueu a mão e tocou a barba dele com os dedos, enquanto a língua quente procurava a dela. O beijo dele fez seu peito doer de saudade... Uma enorme saudade de dias pacíficos que nunca havia vivido com ele e que não acreditava que um dia viveria.
Dany o amava com uma força que estremecia o chão sob seus pés e reestruturava todos os seus planos. Isso instalava nela uma última dor: a do medo de perdê-lo. Tinha absoluta certeza de que Jon era parte dela, de que suas vidas estiveram sempre ligadas e que a união dos dois estava escrita há mais tempo do que poderia contar. Perdê-lo, significaria perder-se também.
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Nota: A frase "o amor é uma prece..." é do livro "As brumas de Avalon". Eu acho ela muito bonita, por isso quis usar aqui. Resolvi colocar algumas características reais do luto em Jon e Dany, porém, de formas diferentes. Ele está sentindo culpa e também está questionando a própria fé, duas coisas comuns que acontecem com pessoas enlutadas. No caso da Dany, o foco do luto está nos eventos traumáticos que geram angústia e insegurança. Ela tem muito medo de continuar perdendo as pessoas ao seu redor. Isso também é muito comum. Estou tentando usar o que conheço para construir esse momento. Ah, e a frase inicial foi editada, no original seria "amigos de verão..."
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