❀ Capítulo 3 | O Silêncio das Flores ❀
Uma semana se passou desde o primeiro e angustiante dia de aula. Como era de costume, os novos professores e alunos logo não se importavam tanto mais com a estranha presença da garota muda. Não havia motivos – era fácil demais ignorá-la em seu silêncio. Zoey só era lembrada quando faziam piadinhas inocentes – quando algum professor mandava a garota ler algo no livro didático, por exemplo. É claro que aquilo era engraçado para todos ao redor – adolescentes amavam um humor ácido. Zoey balançava levemente os ombros e ria em silêncio; mas, se houvesse ali um bom observador, veria que seus olhos perdiam o pouco brilho que costumava ter. Se aquelas pessoas soubessem o quanto aquilo doía, não haveria tanta graça.
A única pessoa que permanecia séria em todos os momentos de descontração na sala – mesmo que não envolvesse Zoey – era Liam. O garoto sempre estava de cabeça baixa, fazendo exercícios ou lendo livros de fantasia nos intervalos. Zoey tentou ver alguns títulos, pois também gostava de livros de fantasia. Mas nunca conseguia. O garoto nunca fazia contato visual com ela – Zoey também evitava aquele tipo de contato com qualquer pessoa, pois sentia-se desconfortável. Porém, naquela ocasião, era diferente: Liam não fazia contato visual com ela. Com os outros colegas – que ele conhecia há tão pouco tempo – ele cumprimentava, davam-lhe um bom-dia educado; mas com Zoey nada falava. Nem um olhar. Nem um bom-dia. Não esperava um sorriso do sério garoto, mas algum tipo de gesto que demonstrava que Liam sabia de sua presença ali, atrás de sua carteira.
Zoey nunca se importou muito com isso. Estava acostumada a não se socializar em local nenhum. Era uma via de mão dupla, entretanto: ao mesmo tempo que aquilo lhe fazia falta, o medo paralisante de se sentir julgada e analisada o tempo todo a afastava. Por que estava se importando tanto com a reação e os supostos julgamentos do novato sobre ela?
Talvez por se identificar tanto com ele. De alguma forma, seu jeito quieto e silencioso e a forma como devorava aqueles livros de ficção chamava sua atenção. Apesar de parecer tímido, não tinha dificuldade alguma de comunicação. Sua dicção era perfeita. Lia aqueles cansativos textos dos livros como se fossem poemas. Como Zoey queria saber ler daquele jeito - a voz ecoava como um canto de pássaro por toda a sala. Além de tudo, a voz de Liam era bonita – baixa, rouca e grave. Ele podia não ser o aluno mais participativo, porém, quando erguia a voz para ler a pedido de algum professor, não lhe faltava elogios.
Zoey invejava-o por ser tão seguro de si.
Além de Liam, a garota foi se acostumando com o jeito das novas pessoas e a mudança abrupta que era o ensino médio. Os novos professores ainda pareciam um pouco perdidos em relação a ela, mas Zoey conseguia perceber seus esforços. Alguns agiam com naturalidade, outros nem tanto - como Daya, a professora de História. Quando não fingia que Zoey não existia, fazia questão de pressioná-la e demonstrar que a presença daquela aluna em especial era um problema. Zoey passou a sentir-se irritada toda vez que ela entrava na sala. As aulas daquela disciplina tornaram-se pesarosas - consequentemente, a matéria não entrava em sua cabeça e não conseguia fazer os exercícios. Zoey nunca se achou inteligente o suficiente – sempre passava com as notas medianas, não eram brilhantes nem péssimas. Seu único problema real era com números. Matemática e Física certamente não eram seu forte. Ela gostava de Literatura e Redação – a forma como as coisas se expressavam por palavras escritas a encantava: era como se, pelo menos naquele mundo, ela não enxergasse limites em si mesma.
No último horário daquele dia, uma sexta-feira quente e ensolarada, a professora Daya entrou na sala e logo ordenou que os alunos se organizassem em duplas. Zoey ouviu alguns colegas murmurarem felizes, olhando para rostos amigos. Logo começaram arrastar as carteiras, formando as duplas. Liam pegou suas coisas e foi para o outro lado da sala, sentando-se com um dos garotos que ele conversava no intervalo. Os outros novatos, que já haviam se enturmado, riam e ajudavam suas duplas com as carteiras. Daya começou a distribuir uma folha para cada par. Zoey permaneceu onde estava, olhando para os lados. Todas as duplas já haviam sido formadas. Naquele ano, havia vinte e cinco pessoas na sala. Era mais que óbvio que Zoey seria a coringa – uma coringa inútil que não podia fazer parte do jogo de cartas. Esperava que alguma dupla a chamasse – geralmente, era permitido um trio – mas ninguém pareceu notá-la. Eram momentos como aquele que a moça sentia-se invisível – e, pior ainda: inútil e burra.
A professora passou por ela, entregando-lhe uma folha.
- É melhor fazer sozinha. As duplas precisam discutir as repostas – ela disse sem olhar para ela. – Entregue no final da aula.
Zoey assentiu levemente com a cabeça e engoliu em seco. Folheou o exercício, colocando seu nome no topo da folha. Havia dois espaços para nomes ali. Ela fechou os olhos por alguns instantes e tentou imaginar alguém ali ao lado. Liam apareceu, os cachos acastanhados cobrindo suas orelhas e o uniforme largo. Sorriu quando o diálogo interno começou a surgir:
- Eu não gosto dessa mulher – Liam diz.
- Também não. Ela não vai com a minha cara – Zoey responde.
- Certamente... – Liam começa a passar as páginas do exercício com uma careta. Bem, vamos começar isso logo antes que o sinal bata.
Zoey sorriu e começou a ler o primeiro texto, marcando as partes que considerava mais importantes. Mentalmente, expunha seus pontos sobre a matéria, dirigindo-se ao Liam invisível e irreal. Sabia que ele não era sorridente daquela maneira. Sabia que ele nunca sentaria ao seu lado. Que nunca seria seu amigo. Mesmo assim, a imaginação fértil de Zoey a ajudava. Se admitisse a alguém que criava pessoas e mundos em sua cabeça e tentava fazer daquilo uma realidade, a chamariam de louca. Mas era como ela lidava com as coisas desde que era criança. Inventava diálogos internos, personagens e situações irreais. A Zoey desse mundo era completamente diferente daquela garota real. Ela nunca seria aquela personagem.
Ela foi a última a terminar o exercício. Colocou a folha às presas na mesa da professora, ajeitou a mochila nas costas e saiu da sala. Liam estava a sua frente, o corredor lotado. Tivera que ficar encarando aqueles malditos cachos até finalmente descerem as escadas para o pátio.
Zoey gostava das sextas-feiras: a sensação de poder ficar dois dias em casa era animador para todos os alunos, mas sobretudo para a garota. Era como se, de repente, pudesse desprender as correntes que prendiam e sufocavam sua laringe. Dois dias, sábado e domingo, eram os dias em que ela tinha a chance de ser um pouco mais ela mesma – por mais que Zoey não compreendesse sua própria identidade.
Mas, ao chegar a casa, lembrou-se do compromisso que teria no sábado. Logo sua animação diminuiu e a preocupação tomou conta dela. Não é hora de ficar ansiosa, ela disse a si mesma. É só amanhã.
O aviso em seu quadro acima da escrivaninha, entretanto, fazia-lhe recordar a todo momento:
10/02 , ÀS 9:00 – ZÉLIA (PSICÓLOGA)
Zoey arrancou o pedaço de papel amarelo gritante do quadro e enfiou-o na gaveta, com raiva. Anne tinha razão – dessa vez, ela não tinha escolha.
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O Silêncio das Flores
Teen Fiction1 | Zoey sempre sentiu-se culpada por ser como era. Quando criança, Zoey desenvolveu um transtorno que a impedia de conversar com as pessoas - a não ser que elas fossem seus pais e sua irmã mais nova. O que as pessoas ao redor não entendiam, entreta...