Por Nina Carvalho
Existem pessoas que passam pela nossa vida.
E existem pessoas que permanecem.
Mesmo quando vão embora.
Noah Cooper era esse tipo de pessoa.
Era curioso.
Durante anos, pensei que a distância fosse capaz de apagar um sentimento.
Que bastava mudar de cidade.
Mudar de rotina.
Conhecer outras pessoas.
Começar uma faculdade.
Construir uma nova vida.
Mas ninguém nunca me contou que saudade não entende de quilômetros.
Ela mora dentro da gente.
Hamptons parecia exatamente igual.
O mar continuava quebrando nas pedras com a mesma calma.
O cheiro de maresia ainda impregnava o vento.
As manhãs continuavam iluminadas daquele jeito que fazia qualquer problema parecer menor.
Mas eu já não era a menina de quinze anos que havia conhecido aquele lugar.
Nem Noah era o garoto que me roubou o primeiro beijo... e, no dia seguinte, fingiu que ele nunca existiu.
Naquele fim de semana, convivemos como se fôssemos velhos amigos.
Jogamos cartas na varanda.
Assistimos ao pôr do sol na praia.
Rimos das histórias absurdas do Alex.
Ouvimos Olivia reclamar porque Ethan insistia em fotografar absolutamente tudo.
Eu e Noah conversávamos com facilidade.
Sobre livros.
Sobre esportes.
Sobre filmes.
Sobre qualquer coisa.
Menos sobre nós.
Sempre que o silêncio parecia abrir espaço para uma conversa de verdade...
Alguém aparecia.
Olivia.
Alex.
Ethan.
O universo parecia ter medo de nos deixar sozinhos.
E talvez nós também tivéssemos.
Na última noite, fiquei observando Noah da varanda.
Ele ria de alguma piada do Alex.
A cabeça jogada para trás.
O sorriso fácil.
Aquela covinha que eu fingia não procurar.
Era estranho.
Ele estava tão perto...
...e parecia morar em outro continente.
Poucos dias depois, cada um seguiu o próprio caminho.
Alex e Noah foram aprovados na Escola Naval.
Os dois tinham o mesmo sonho desde adolescentes.
Queriam servir.
Queriam desafiar os próprios limites.
Queriam, um dia, conquistar o direito de tentar o treinamento para se tornarem SEALs.
Quando Noah me contou, seus olhos brilhavam como os de um menino realizando o maior sonho da vida.
E eu sorri.
Porque amar alguém também significa torcer para que ele encontre o próprio caminho...
Mesmo quando esse caminho o leva para longe de você.
Olivia foi aceita em Moda.
Era impossível imaginar outro destino para ela.
Ela enxergava beleza onde ninguém mais via.
Transformava tecido em arte.
Sonhos em croquis.
Ela nascera para aquilo.
Quanto a mim...
Escolhi Medicina na Universidade Columbia.
Todos diziam que eu tinha vocação.
Que eu sempre quis cuidar das pessoas.
Era verdade.
Mas existia uma segunda verdade.
Uma que nunca contei para ninguém.
Nova York também era onde Noah estaria sempre que pudesse voltar.
Talvez eu nunca tivesse coragem de admitir isso em voz alta.
Nem para Olivia.
Nem para mim mesma.
O tempo passou.
Mais rápido do que eu gostaria.
Nossa amizade virou encontros marcados pelo calendário.
O aniversário do tio Edu.
O Natal.
O Ano-Novo.
Um almoço em família.
O anúncio da gravidez de Celeste.
Nunca vou esquecer daquele jantar.
Ela segurava um pequeno sapatinho de tricô nas mãos.
- Acho que alguém vai precisar aprender a ser tio...
Por alguns segundos, ninguém entendeu.
Depois...
A casa inteira explodiu em comemoração.
Olivia chorou antes mesmo de Celeste terminar a frase.
Alex levantou tio Edu do chão num abraço tão apertado que achei que fosse quebrar suas costelas.
Noah me encontrou sorrindo do outro lado da sala.
Nossos olhos se cruzaram.
Sem dizer nada, ele sorriu para mim.
Sorri de volta.
Como sempre fazíamos.
Como se isso bastasse.
Os anos continuaram passando.
Até que chegou a formatura da Escola Naval.
Quando Noah apareceu usando aquele uniforme branco impecável...
Meu coração esqueceu completamente que já era adulto.
Ele estava diferente.
Mais alto.
Mais forte.
Mais homem.
Mas havia algo que nunca mudava.
Os olhos.
Os mesmos olhos que um dia me fizeram acreditar que o primeiro amor podia durar para sempre.
A cerimônia terminou entre abraços, fotografias e homenagens.
Foi só quando todos começaram a se dispersar que finalmente nos encontramos sozinhos.
- Engraçado... - falei.
Ele sorriu.
- O quê?
- Parece que a gente só se encontra em eventos importantes.
Ele abaixou a cabeça, rindo.
- Também tenho essa impressão.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Respirei fundo.
Chega.
Eu estava cansada de esperar.
Cansada de imaginar.
Cansada de viver de "e se...".
Olhei diretamente para ele.
- Noah...
Ele ergueu os olhos.
- Eu preciso te contar uma coisa.
Meu coração batia tão forte que achei que ele conseguiria ouvir.
- Eu nunca consegui...
- Noah!
A voz feminina surgiu atrás dele.
Uma mulher elegante caminhou até nós com um sorriso enorme no rosto.
Sem pensar duas vezes, envolveu o braço dele e depositou um beijo demorado em sua bochecha.
- Estava te procurando.
Noah sorriu para ela.
Depois voltou-se para mim.
- Nina... essa é...
Naquele instante, eu já não escutava mais.
As palavras perderam o som.
O sorriso continuava no meu rosto.
Mas, por dentro, alguma coisa desmoronava silenciosamente.
Talvez o destino realmente gostasse de brincar conosco.
Porque, mais uma vez...
Eu tinha chegado exatamente na hora errada.
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Meu lugar ao Sol
RomanceNina Carvalho perdeu a mãe ainda muito nova e cresceu em um lar com um pai ausente, convencida de que nunca seria amada de verdade. Sua visão sobre o amor era limitada ao que ela via nos livros, até que conheceu Olie e sua família, que lhe mostraram...
