|| 12. V I N C E N T ||

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12.  V I N C E N T

Olho para a garota disfarçada em meus braços e sinto um nó formar-se em minha garganta, estou apreensivo e preocupado de uma forma que nunca estive antes. Nunca fui de me preocupar com os outros, afina, eu não podia ver suas expressões, mas olhando para ela agora, desacorda e frágil, arfando de dor mesmo inconsciente, me sinto nervoso por não ter feito nada antes.

Dylan tentou pegá-la para levar a enfermaria, na deixei.

Mesmo cansado e dolorido, não podia deixar qualquer um carregá-la. Iria ficar nítido que era uma garota assim que ele a segurasse, pelo peso e musculatura, nós homens temos os ossos mais pesados que as mulheres, e ela não pesa quase nada. Não iria deixar o seu segredo ser descoberto assim tão facilmente.

Empurro a porta da enfermaria com o pé e uma enfermeira vem até nós, indicando a maca para colocá-la.

Deito sua cabeça com cuidado sobre o travesseiro, e arrumo suas pernas, deixando-as esticadas.

Explico ao médico que aparece logo em seguida, sobre o que houve e peço a ele para que cuide bem do garoto.

Ele faz alguns testes olhos, pulsação, afere temperatura e volta sua atenção para mim novamente.

— Como ele está?

— O garoto é forte, está apensas cansado. O desmaio foi pela exaustão. Ao que parece a treinadora Simon caprichou no castigo dessa vez. Vá tomar um banho, descanse, ele deve acordar dentro de duas a três horas. – O senhor se despede e se afasta para examinar um outro aluno que chegou com o nariz sangrando.

— Vince, encontramos o celular do Ken no vestiário. Não acha melhor avisar algum parente? – Dylan entra acompanhado de Peter, Benjamin e David.

Me estende o celular e eu procuro por suas discagens rápidas, já que o aparelho tem senha.

Clico no contato que diz "Sis", pois não achei conveniente ligar para um tal de Kris. Acho que essa deve ser sua irmã.

— Vaca da minha vida! Posso por que não me ligou antes? – A garota diz aos berros do outro lado da linha.

— Não é o Ken. Me chamo Vincent e estou com o celular dele...

— O que o idiota do selinho faz com o celular dela? – Sorrio diante do seu comentário.

Então quer dizer que você andou falando sobre mim para a sua irmã, pequena ardilosa? – Olho para a garota adormecida e é inevitável não manter o sorriso.

— Eu mesma, em pura beleza e charme. Estou ligando para avisar que o Ken desmaiou hoje após o treino e está na enfermaria. Para o caso de querer visitá-la.

— Obrigada, senhor charme e beleza. Chego em dois minutos. – Ela desliga e eu trato de tirar os quatro da sala.

— Vamos rapazes, a irmã do Ken está vindo aí. Vamos deixá-los a sós.

Assim que os quatro estao do lado de fora, fecho a porta atrás de mim e seguimos para o nosso dormitório, um prédio de dois andares, escondido atrás do prédio dos veteranos. Pintado com as cores do time de Hóquei, com algumas arvores e bancos brancos, ele não é tão atrativo quanto o que os veteranos moram e dão suas festas até tarde da noite, mas as pessoas fingem que não sabem, pois querem ser convidadas também.

Onde os calouros, não podem ir sem serem convidados.

Mais à frente temos a casa das líderes de torcida e logo ao lado a das patinadoras, do lado do nosso prédio tem o do time de lacrosse, ou seja, moramos todos muito perto uns dos outros. Logo, fica difícil não saber das festas, mesmo recebendo convites para ir, me contenho em ficar no quarto, são muitas pessoas para eu assimilar de uma só vez, tenho receio de não reconhecer alguém, ou trocar os nomes e passar vergonha, sem falar que sinceramente não nasci para ir de festa em festa, enchendo a cara como se não houvesse amanhã.

Prefiro ficar no meu canto e observar.

Não considero minha cegueira facial um problema, por que não a faço um problema. Mas sei que não devo exagerar.

Me despeço dos rapazes na porta do meu quarto e passo direto para o banheiro. Sem me preocupar em andar só de cueca box, pois ela não está por aqui.

(...)

Após um cochilo breve, pego minha mochila e vou até a enfermaria ver como ela está.

Ergo minha mão para bater na porta, mas ouço alguns sussurros e me contenho.

— Acho melhor você sair da North. – Diz uma voz feminina, parecendo aflita. — Você desmaiou durante um treino, hoje, Ken! Você é só uma garota!

Shiiiii! – Ken adverte.

— Além do mais, você e esse tal Vincent não se entendem, sem contar que vocês se beijaram com você vestida de garoto! E se ele for gay? E se te atacar durante a noite.

Gay?

Eu? Oi?

Atacá-la?

Ela é louca?

— Ele não é assim, Abby. Se não fosse por ele, eu teria desmaiado bem antes. O Vincent arriscou o pescoço por mim. – Não contenho o pequeno sorriso que se forma em meus lábios. — Além do mais, você foi a primeira a me incentivar a vir, estudar aqui é o meu maior sonho. Independentemente de onde estou, seja na patinação ou no Hóquei, eu estou no mesmo lugar que abrigou a minha mãe, tem noção disso? Quando ando por aqui, sinto que até a grama e todas as arvores desse lugar conheceram ela.

Ken suspira emocionada e eu procuro sair logo dali antes que seja pego no flagra, ouvindo a conversa alheia.

Por que sempre que tento afastá-la acabo me aproximando e me identificando duas vezes mais com essa garota?

(...)

— Vamos aos fatos. Você descobriu que ele na verdade é ela, só tinha um quarto individual e ela perdeu a chance de consegui-lo, você então, como o bom cavalheiro do hóquei, segurando seu taco, acertou o quarto duplo dela, por que ela é uma menina e você queria protege-la, é isso? Ah! Não posso me esquecer que hoje tomou o lugar dela e defendeu duzentos e cinquenta e quatro gols, só por que não suportou vê-la fraca em sua frente. – Thomaz pondera tudo o que lhe contei, colocando os pontos de uma forma que me faz parecer completamente apaixonado por ela, o que não é o caso.

Apenas não fui criado para tratar mal uma garota independentemente de como ela esteja vestida.

— Ela não estava bem, eu apenas ajudei-a.

— Eu não disse nada, sobrinho. Só estou revendo o que me contou para ver se entendo. – Ele coloca as maos em meus ombros, me fazendo olhá-lo, sabendo que não posso ver sua expressão. Faz isso para que eu sinta a segurança que ele quer me passar. — Saiba que estou do seu lado para o que precisar. Marquei uma consulta com o doutor McCarthy. Ele irá avalia-lo, ficou curioso quando lhe contei sobre você conseguir ver apenas uma pessoa, e ela não ser ninguém da sua família. Marquei para sexta-feira, tudo bem para você.

Assinto, sorvendo um gole do meu café.

Mesmo não admitindo em voz alta, mas poder ver o rosto dela com clareza, aumentou significativamente as minhas esperanças de poder voltar a ver os rostos e as expressões das pessoas, distinguirem quando estao sendo sinceras, ou mentindo para mim.

Sem saber, Ken me deu uma nova chance para acreditar e não perder a fé.

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Minha Garota [CONCLUÍDA]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora