"Feliz Aniversário, Mel !"
Ainda podia ouvir como se fosse um sussurro, longe, fraco, uma tênue lembrança de anos atrás. Havia sido há poucas horas, mas poderia ter sido há séculos. Foi dito logo antes de me deitar e ficar naquele estado de sonolência chata, em que não se dorme, mas também não se está exatamente acordado. Fiquei pensando: "Caramba! Já seria meu aniversário?" Aquele dia estava sendo uma surpresa por dois motivos: um porque não me lembrava dessa data estúpida, já que foi ignorada em minha família, e a data correta nem era aquele dia, apenas o seguinte. O outro motivo de surpresa conseguia ser ainda mais esquisito. Aquela noite havia tido minha primeira festa de aniversário.
Quando cheguei em casa as luzes estavam apagadas. Até aí, tudo bem. Meus pais nunca foram do tipo de pessoas que fica assistindo televisão na sala. Ao abrir a porta levei um susto que quase fez meu coração sair rolando pelo carpete. A sala encheu-se do dourado flamejante das velas de aniversário, em cima de um bolo cor-de-rosa, com meu nome escrito um pouco torto. Um bolo provavelmente comprado em doceria chique, com detalhes que me lembravam os dos casamentos reais. O grito de "surpresa" havia sido animado, divertido, mesmo que emitido por poucas vozes. Os olhos varreram a sala, e o rosto de cada um dos presentes foi distinguindo-se. O coração ainda afundava no peito, mas mesmo assim abri os braços, coloquei um sorriso nos lábios e distribui abraços. Sentia-me chocada, até um pouco brava com a atitude, mas sabia que aquilo fora feito com a melhor das intenções. Talvez o meu método de ignorar este dia finalmente tivesse tocado meus país.
A sala havia sidoiluminada com luzes extras, provavelmente da decoração de Natal guardada noporão. Havia bolões coloridos por todos os lados e uma faixa por cima da portaanunciando "Feliz Aniversário, Melanie Aine !". Nunca havia vistominha casa tão festiva. Balões me pareciam um esforço muito grande. Então issoque era ter uma festa de aniversário? Tudo bem que aquilo não podia ser chamadoexatamente de festa. Era quase uma reunião familiar. Estavam presentes apenas meus pais e um casal de amigos. Somente adultos e eu. Bem...poderia me incluir nos adultos, afinal, na virada daquele dia completaria 18 anos. Em muitos países a maioridade é atingida nessa idade. Contudo estava longe de ser uma mulher adulta, madura, desenvolvida. Sempre fui uma menina solitária, esquisita, que fazia coisas estranhas. Ainda sou assim. Até entendia o fato de nunca ter tido uma festa de aniversário. No final das contas...quem viria para uma comemoração minha? Ainda mais em uma casa que parecia um castelo medieval, localizada perto de Epping Forest - Há quase uma hora de Londres, sem trânsito. Transporte público era algo raro pelas redondezas, então chamar um conhecido para viajar todo esse tempo somente para comer um pedaço de bolo com a garota esquisita seria pedir demais. Chegava a ficar triste pelos meus dois amigos que ainda teriam de voltar para a cidade grande.
Eu parecia realmente muito assustada, como se achasse que poderia estar tendo uma alucinação. Precisei esfregar os olhos várias vezes durante a festa, para ter certeza de que não estava dormindo. Dormir. Isso parecia bom. Mas naquele dia não funcionaria. Já era quase meia-noite, tinha aula no dia seguinte e nada do maldito sono vir. Daria tudo para que minha mente parasse de pensar. O mais engraçado era saber que minha boca seca pedia água para aliviar o gosto amargo, só que eu não tinha forças para abrir os olhos. Poderia eu estar dormindo e conversando comigo mesma no meu sonho? Talvez sim. Eu tinha tendência ao anormal. Só sabia que não parava de recordar aquela noite inesquecível.
Lembrei que quase no fim da festa meu pai me chamou na varanda para ver os vaga-lumes piscarem por entre as árvores da floresta escura, feito luzes estroboscópicas.
- Parecem fadinhas... - sussurrei como em um pensamento, sentando-me na cadeira de balanço, mas meu pai sorriu com o comentário.
Sabia que me chamava para falar sobre algo sério. Sempre foi assim. Ele ficava observando o pisca-pisca dos vaga-lumes, enquanto falava de assuntos estranhos que fazia meu peito doer.
- Querida, lembra-se de quando lhe pedi que escolhesse uma nova língua para aprender?
- Claro que me lembro. No final, até gostei de aprender latim.
- Então, fiz uma promessa que te ensinaria palavras especiais e hoje a cumpro - respondeu me entregando o pacote.
Um presente! Além de uma festa, estava recebendo um presente no dia do meu aniversário. Ninguém conseguiria entender a imensa felicidade que senti. Os fogos de artificio explodindo no peito. A sensação de ser uma pessoa normal. Ter pais normais. Pais que davam presentes em datas comemorativas.
Recebi um livro grosso, marrom, muito velho, talvez até mofado. Mas não ligava. Porque ele era meu. Havia sido dado por meu pai. De acordo com ele, o livro possuía palavras de poder...especiais. Eu deveria aprendê-las para quando precisasse pronunciá-las. Aquilo não fazia o menor sentido para mim, mas nem liguei. Depois veria a utilidade do livro. O importante foi o abraço forte que dei no meu pai e o "eu te amo" sussurrado.
A festa terminou, agradeci a todos pela surpresa e fui para o quarto, ainda acordada mas quase dormindo. Empanturrada de bolo. Poderia ter sido isso o que prejudicou meu sono? Bobagem!
Estava assim por saber que dali a alguns segundos seria uma "adulta". Uma adulta com festa de aniversário.
Na minha cabeça contava: 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2....
Pânico.
A dor ultrapassava qualquer limite, fazendo meu corpo se retorcer involuntariamente. Ele se mexia, mas não conseguia acordar. Era uma dor atroz, paralisante. Não entendia o que estava acontecendo. Como era possível que eu sentisse essa cruel sensação , que ardia os nervos, sem ao menos gritar?Muito em breve atravessaria um limite invisível e me sentiria tão mal que já não poderia manter a ilusão de uma vida. Se a dor continuasse aumentando, talvez cederia à morte, mas não desejava aquilo. Não podia morrer.
Lutei para a mente acordar. Fazia um enorme esforço, quase sobre-humano, tentando abrir as pálpebras. Nada. Nem um frio de luz entrando pelas brechas dos olhos. A queimação vinha de uma área nas costas, na lombar, quase perto da nádegas. Senti um cheiro de queimado. Forte. A princípio ruim e, aos poucos, assemelhava-se ao cheiro de canela. Aquilo impregnou as narinas, como se estivesse intoxicando os pulmões. Tinha a sensação de que minha pele estava se rasgando em várias partes. O que acontecia comigo? Parecia castigo, uma punição, provavelmente por algo realizado. Mas o quê?
No ápice da dor, pensei não aguentar mais, ouvi um grito. Grito? Mas minha voz continuava sufocada. Como eu poderia ter gritado?
Outra vez o grito. Mais nítido. Intenso. Como se fosse um pedido de misericórdia. A voz não era minha. Parecia ser masculina. Aos poucos o cérebro foi juntando os pedaços. Qual a única voz masculina na casa? Despertei. Meu pai.
Dando um pulo da cama, ignorei completamente a dor, os espasmos e o cheiro. Eles pareciam uma memória distante, assim como o aniversário e o presente. Meu pai estava em perigo e eu sentia as mãos atadas. O que eu poderia fazer? Havia acontecido alguma coisa?
Antes de sair desesperada do quarto, tropeçando em ursinhos de pelúcia remendados, resolvi para em frente ao espelho.
Virei-me de costas e vi a vermelhidão.
Havia a imagem de uma fada. Um desenho preto com aparência envelhecida, ainda saltando da pele machucada. Parecia uma tatuagem. Ms ador de se fazer uma daquelas não poderia ser tão violenta. Por que existia uma fada com asas abertas em minha cintura?
O grito. Esses cinco segundos que levei para observar o misterioso desenho poderiam ser decisivos no resgate de meu pai. Saí correndo.
Naquele momento minha vida mudava, para nunca mais ser a mesma.
O surgimento de uma fada pode fazer coisas assim.
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A Fada
FantasyJOVENS COSTUMAM GANHAR presentes caros, viagens ou festas surpresas em aniversários de 18 anos. Melanie Aine ganhou o falecimento do pai, o abandono da mãe, uma estranha tatuagem e a descoberta de que não era humana. Como se tudo isso não b...
