Deidara

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Já haviam se passado dois dias desde a última conversa com Obito. Dois dias que pareceram semanas. Ainda sentia dentro de mim o peso daquelas palavras, a muralha que ele erguiu entre nós, como se tivesse cravado na minha pele a certeza de que não queria qualquer tipo de ajuda. Eu, no entanto, estava disposta a oferecê-la, mesmo que ele não aceitasse.

Talvez fosse ilusão, mas em algum momento pensei que ele pudesse sentir o mesmo por mim. Engano. Foi apenas mais uma miragem que construí sozinha, um devaneio que me enredou. E, quando a verdade me atingiu, o choque foi devastador: o homem com quem eu quase me entreguei, o mesmo que começou a despertar sentimentos novos em mim, havia sido o melhor amigo do meu mentor.

Tobi.


Aquele palhaço mascarado de risadas fáceis, que me fazia rir quando eu menos esperava, nunca existiu de verdade. Era apenas uma máscara. Um disfarce criado por Obito, para esconder um coração devastado. E era esse coração que, agora, eu queria alcançar.

Mas nele já havia alguém: Rin.
Não precisei ouvir muito para saber o quanto ele a amou — e ainda amava. O nome dela se cravava em sua voz como lâmina, e a culpa o perseguia como sombra eterna.

Eu me perguntava se ela teria correspondido a esse amor. Será que também o amava da mesma forma desesperada que ele parecia amá-la? Kakashi, quando falava, sempre se esquivava do assunto. Tudo o que me disse era que Obito havia sido alguém de coração puro, e que sua morte era uma ferida que ele mesmo carregava com culpa.

Lembro-me da frase que Kakashi repetia, uma máxima de Obito que se tornou lema: 

"Aqueles que quebram as regras são tratados como lixo. Mas aqueles que abandonam seus companheiros... são piores que lixo."

Essas palavras me marcaram desde a primeira vez que as ouvi, gravando-se em mim como ferro em brasa. Eram dolorosas e verdadeiras. E, por mais que tentasse, não conseguia esquecê-las.

Apesar disso, uma decisão tomou forma dentro de mim: eu precisava esquecê-lo. Se não como mulher, ao menos ajudá-lo como amiga. Doía admitir, porque, no fundo, eu estava disposta a apagar a lembrança daquela mulher falecida de sua vida, arrancá-la dele à força, se fosse necessário. Mas percebi que isso levaria tempo — tempo que eu não estava disposta a esperar.

Ainda tinha meus próprios sonhos: queria ser uma kunoichi forte, queria reencontrar meu irmão, e, acima de tudo, ainda nutria o desejo de arrancar a maldade deste mundo, mesmo vivendo entre os que a cultivavam.

Era tarde quando decidi que precisava descansar. Talvez o sono me libertasse, ainda que por algumas horas, dessa espiral de pensamentos.

Caminhei pelo corredor frio que levava ao meu quarto. Foi então que notei a porta entreaberta de outro aposento. Reconheci de imediato: era o quarto de Deidara. Ele dividia aquele corredor comigo e com Konan.

Empurrei a porta devagar. Nunca havia entrado ali desde que nos mudamos, mas o espaço refletia sua alma artística. Estantes repletas de pequenas esculturas de argila tomavam boa parte do cômodo; uma mesa de trabalho repousava ao fundo, coberta de ferramentas e resquícios de pó branco. Havia ainda uma pequena prateleira de livros que eu não me lembrava de ter visto antes.

O cheiro no ar denunciava tabaco queimado — Deidara recorria ao cigarro sempre que estava estressado, e eu já havia notado isso outras vezes.

Ele estava sentado, óculos no rosto, concentrado em um livro. O traço sério, a postura ereta, a atenção absorta. Nunca o havia visto assim, tão... lindo.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, sua voz cortou o ar:

— Podia ter batido na porta, hm. — disse, sem levantar os olhos.

Deidara x leitora Onde histórias criam vida. Descubra agora