dois| O Outro Lado do guarda-roupa

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—Tem certeza? – Tia Sofia me perguntou.

Estávamos em meu quarto, eu arrumando minhas malas azuis, a mulher enxugando seus cabelos ainda úmidos do recente banho. Ela havia chegado meia hora atrás, conversado com Cedro em particular, enquanto Miguel e eu fazíamos café para a visita. Quando voltei para sala, titia me mandou fazer minha bagagem e ela fora para o próprio quarto, ao voltar, já não usava seu uniforme branco, sim um vestido bege e passava a toalha em seus fios castanhos.

E não, eu não tinha certeza, para falar a verdade, eu estava tão cheio de dúvidas que era provável estar pesando um pouco mais. E uma delas era o que fazer caso gostasse do Outro Lado, ou o que eu perderia se não tentasse e se eu me arrependesse depois? E também, queria confrontar Henrique, saber de sua boca os motivos de nunca ter me falado sobre magia e Sobrenaturais.

— Você sabia de tudo – não perguntei, assim como não a olhei.— Por que não me falou?

Sofia afastou um pouco a mala de cima da cama, sentou e me puxou para sentar a sua frente.

— Bento, querido – começou, agora ganhando minha atenção. — meu pai não tinha magia e casou com minha mãe, quando Henrique e eu nascemos, eles sabiam que só um de nós era um Sobrenatural, quando fizemos doze anos e eu não entrei em transição, eles separaram. Foi uma decisão difícil, meu pai veio para o Lado de Fora comigo e mamãe ficou com meu irmão. Eles ainda se amavam, mas pais fazem sacrifícios para protegerem seja filhos. Henrique achou melhor te trazer para cá porque sabia que você é de Alta Capacidade e isso pode ser ruim, entende?

— Ele poderia ter me contado – murmurei, sentindo um aperto no peito.

— Sim, podia – concordou.— mas, ele nem queria que você fosse.

— Por quê?

— Em todo lugar têm pessoas ruins, ele temia e teme que você acabe chamando a atenção dessas pessoas.

— Ok, entendi – falei, mesmo que ainda sentisse a coisa ruim no peito. — e você, por que não disse ?

— Respeitei a decisão dele.

— E minha mãe?– perguntei, porém já sabia que não obteria respostas, pois titia franziu o cenho.

— Pérola morreu durante o seu nascimento – respondeu o que eu já sabia.

— Cedro disse que ela era de Alta Capacidade.

— Eu não a conheci – falou, lamentosa.— sinto muito.

Levantei para voltar a dobrar minhas roupas para a viagem, no  entanto, lembrei de perguntar:

— Você disse que meu avô teve que vir com você, por quê?

— Um Natural não pode viver do Outro Lado, a menos que seja casado com alguém com magia e se uma criança não entra em transição, é mandada para cá. Eu ficaria sozinha aqui.

— Isso não é preconceito?

— Não, querido. As pessoas sem magia naturalmente rejeitam a cultura Sobrenatural e o contrário também acontece. É como dar folhas a animais carnívoros, não vai ser suficiente, entende?

Sim, eu entendia.

— Sinto muito, tia.

Antes que eu pudesse sair do quarto, depois de acabar de fazer as malas, a mulher me chamou e quando teve minha atenção, disse apenas:

— Não esquece que seu pai só queria te proteger, querido.

Embora eu fosse novo ainda, consegui compreender a mensagem por trás daquela frase. Era para eu tentar entender meu pai e seus motivos.

Bento Gowdin e os Sobrenaturais || A flor divinaOnde histórias criam vida. Descubra agora