Redimida

116 6 3
                                    

- No que você pensou nas últimas vezes em que se transformou?

Meu cabelo está úmido e grudado na minha nuca, o ar gelado transforma minha respiração em fumaça e o som da chuva sobre a terra parece um retumbar rítmico, como se o céu cantasse uma canção antiga para a floresta.

Minha resposta é incerta, pois meus sentimentos mais recorrentes tem nome e endereço, assim como uma montanha de fatores: A escola.

Sam provavelmente não se importava com meu desabafo, tudo o que importa para ele é o porquê de eu existir, ou como, ou se valia a pena o suficiente para começar outra guerra.

Ele estava lá, de pé, em toda sua arrogância constante, vestindo apenas uma bermuda, ignorando o vento e a chuva. Ele tinha me explicado antes como sua temperatura podia ser alta, quão quente ele sempre seria, podendo suportar qualquer tipo de temperatura baixa do ambiente.

A teoria parecia não se aplicar a mim.

Carlisle tinha testado, na forma lupina eu era apenas normal, minha temperatura remetia a de um lobo comum, não a de um lobisomem, então enquanto permanecia parada na chuva a espera do término do interrogatório de Sam, meu corpo tremia levemente pelo frio que penetrava a roupa molhada.

Apertei meus lábios com força para parar o tremor.

- Na maioria das vezes, medo. Ao menos foi assim nas primeiras vezes.

- Isso é estranho, para nós a raiva é o gatilho que move a primeira transformação, pois quando a febre vem, as emoções se tornam mais agressivas, e perder o controle é o ápice.

- Febre... eu não me lembro de ter febre.

- Você era apenas uma criança, o estresse deve ter sido grande demais para seu corpo, a ponto de não perceber o que estava acontecendo com seu organismo.

Eu soube no mesmo momento o que ele estava tentando fazer.

Estava querendo que eu me lembrasse desse episódio em particular, da primeira vez em que me transformei, e isso, não ia acontecer, eu não queria e não iria lembrar.

- Preciso ir, tenho dever de casa.

Eu realmente tinha folhas e folhas de exercícios extras, então, eu não estava dando uma desculpa, apenas usando um fato para omitir a minha relutância, e por isso não olho em seus olhos quando começo a descer pela trilha de volta para a casa dos Cullen, Sam não diz nada quando eu parto, é assim que funcionamos, às vezes nos despedimos, às vezes não pronunciamos sequer um "a".

O compromisso era simples, eu o encontrava, me transformava e depois contava tudo o que sabia sobre minha vida perdida.

Simples assim.

No caminho para casa pensei em como tinha sido embaraçoso o primeiro dia de aula, quando eu deixei aquela garota sozinha, sem dizer meu nome, sem entender o que tinha acontecido. Eu passei o resto do dia ignorando todos ao redor, os professores pareciam impressionados com meu desempenho nas atividades em sala de aula e quando os elogios vinham eu apenas encarava minhas mãos e acenava, tentando ignorar o peso constante dos olhares ao redor.

No momento em que Jasper ligou no final do período eu já estava correndo para fora do prédio, ao entrar no carro me afundei no banco e permaneci em silêncio por todo o caminho, meu guardião não disse nada, seu silêncio condizia ao meu.

Nos três dias seguintes eu fiz o mesmo, entrei, assisti às aulas, respondi aos exercícios, me sentei fora do refeitório para comer e no final do dia corri para o carro onde Jasper me esperava pacientemente, seu silêncio me deixando confortável e finalmente relaxada.

Luar PuroOnde histórias criam vida. Descubra agora