Acolhida

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Uma nuvem vermelha permeia a minha volta.

Ela me cerca por todos os lados, sugando o pouco de paz que ainda se agarra a minha alma, e rouba o meu ar, se enroscando e prendendo meus braços, ela está me sufocando com lentidão, silenciando meus gritos... eu posso sentir ela serpentear, se aproximando e então retrocedendo, cada vez mais perto, me deixando apavorada o suficiente para provar seu ponto... a minha destruição.

- Ayira!

Meu rosto se comprime violentamente em agonia, fraca eu me viro em direção aos gritos, seu desespero audível faz meu corpo querer se despedaçar, indefesa e vulnerável eu só posso assistir quando a mulher corre até mim.

Seus cabelos são como asas de corvos, uma confusão emaranhada que cobre seu rosto... mas eu posso ver, eu consigo, por que é a única coisa que me mantém a encarando... a força dos seus olhos, aquela força voraz e inquebrável se esgotando enquanto corria. Eu não sabia quem ela era, mas de repente com o bater de uma borboleta tudo se despejava, e assim que eu estava prestes a tocá-la, uma força invisível se manifestou e a puxou para o vermelho infinito.

O último som que sai de seu corpo é um guincho horrível e familiar demais.

- Mãe, não!

É tarde demais, sempre será.

A nuvem escarlate sempre leva tudo que ela era para longe de mim.

Derrotada eu procuro ao redor por um único sinal de misericórdia, mas tudo o que encontro é mais perda, o seu corpo estendido no chão, sua pele castanha tão fria e tão pálida...apagado... drenado.

- Pai...?

Seu corpo é arrastado pela força, sendo engolido pela nuvem vermelha, assim como a minha mãe, ele apenas se vai.

Meu grito de horror ecoa contínuo e constante em meus ouvidos, o sangue em minhas veias zumbindo com cada nota de desespero.

É tão horrível, eu nunca vou encontrar paz de verdade, vou viver para sempre num ciclo vicioso de perda, sempre recriando a morte de meus pais, vivendo aquele pesadelo repetitivo e interminável.

Como um apagão o cenário muda novamente, se tornando escuro e frio, gelo se alastrando nas bordas escuras dos cantos mais dolorosos da minha mente.

Frio.

As solas dos meus pés queimam sobre o gelo que se estende no horizonte, um branco sem fim engole todo o ar ao meu redor.

É só o que sinto enquanto corro, rápida e desesperada é como soa minha alma.

As bordas escuras estão surgindo por trás de mim.

E eu sei, no fundo do meu coração que não posso olhar para trás, não posso nunca.

E nesta escura e sombria floresta de pinheiros e árvores hibernais é onde encontrarei segurança e aconchego, aqui está minha salvação, em algum lugar.

O predador dentro da minha alma não ignora o perigo, o instinto arde nas minhas veias, e me preparando para o pior eu viro o rosto... e assim também me perco, escuridão me engolindo.

A dor é instantânea, paralisadora, meus joelhos cedem e eu caio, a pele rasga em contato com a pedra fria, posso sentir cada veia tremer como se estivesse prestes a explodir.

Besta... você nunca o terá.

Sua voz é doce e raivosa, um silvo de ciúme deslizando de seus lábios.

Eu sei que é ela, mesmo que meus olhos estejam presos ao teto escuro e interminável, sei que o anjo maldito a minha frente possui olhos de sangue, que tem este sentimento vicioso que grita: Mate-a, mate-a...

Luar PuroOnde histórias criam vida. Descubra agora