Capítulo 2

120 32 458
                                        


{2443 palavras} 

O Caos em Azul-Marinho

Olá! Me chamo Sharma. Sim, eu sei... que nome! Quando eu tinha meus doze anos, devorava revistas de fofoca por um único motivo: recortar fotos dos meus atores preferidos. 

Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Tom Cruise, Nicolas Cage, Keanu Reeves, Jake Gyllenhaal, Ben Barnes... A lista era longa. Eu organizava cada recorte em pastas pretas com plásticos transparentes, criando minha própria publicação artesanal.

O grande sonho de tanta gente — e o meu não era diferente — sempre foi cruzar o caminho do seu ídolo. Esse desejo arrastou-se comigo até meados de 2020, quando alcancei a marca dos trinta e seis anos. Por essa fantasia, eu faria qualquer negócio para entrar nesse universo reluzente.

O que eu jamais imaginaria é que pisar nesse mundo me custaria tantas dores de cabeça e arrependimentos.

Com um esforço monumental, consegui um emprego em uma das publicações de maior prestígio do planeta: a Revista Vogue, fundada ali mesmo em Nova York por Arthur Baldwin Turnure e Harry McVickar. Foi o dia mais radiante da minha vida. 

Eu mal podia acreditar que era, oficialmente, uma funcionária da Vogue. Claro que não num setor glamouroso, mas na Gestão de Entregas e Encomendas. Nunca fui de reclamar; qualquer trabalho honesto para mim sempre teve valor. 

O problema daquele setor atendia por um nome: Senhorita Matthew. Se o diabo resolvesse se casar, ela seria a noiva perfeita.

Essa mulher transformava minhas seis horas de jornada nas piores da minha existência:

Sharma, pegue isto! Sharma, busque aquilo! Sharma, meu copo! Sharma, traga meu chá! Shar-maaa, minha água!

Para completar o pesadelo, eu recebia de duas a três ameaças diárias de demissão caso ousasse relatar o excesso de desvios de função. Por oito longos anos, além de triar milhares de cartas, encomendas e mimos dos funcionários, fui forçada a atuar como criada pessoal do cão de saia.

Mas o dia 1º de dezembro de 2020 veio para sacudir minhas estruturas. Seria mais um dia fatídico de ordens absurdamente arrogantes e humilhações que eu teria de engolir a seco.

Lembro-me de levantar e ir ao meu banheiro minúsculo para a rotina matinal. Ao secar as madeixas e me encarar no espelho, vi uma mulher de trinta e seis anos com olheiras profundas — que exigiriam camadas generosas de corretivo —, a pele pálida como a de um fantasma por falta de tempo para ver a luz do sol, e um olhar tragado pelo cansaço. Desviei o rosto com um aperto no peito, envergonhada do meu próprio reflexo.

Vesti o uniforme azul-marinho decorado por uma faixa branca sutil que tentava conferir algum luxo ao conjunto de suéter, saia, meias e sandálias brancas. Minha obrigação era chegar uma hora mais cedo para etiquetar encomendas, abastecer os dois frigobares do andar com água, chá, energéticos e vodca, e preparar as refeições da Senhorita Matthew no micro-ondas.

Mas Nova York decidiu me pregar uma peça: o trânsito virou um nó cego e cheguei quinze minutos atrasada. Entrei em pânico. Teria apenas quarenta e cinco minutos para dar conta de tudo.

Nos meus oito anos de Vogue, nunca deixei de dar um "bom dia" caloroso a todos, do faxineiro ao porteiro. Naquele dia, contudo, saltei do táxi em disparada e passei batido pelo velhinho da entrada. 

O querido senhor entendeu meu desespero; em vez do habitual "Bom dia, querida Shar", apenas acenou com a cabeça em solidariedade.

Ignorei os elevadores — trinta segundos de espera seriam minha sentença de morte — e encarei vinte lances de escada como uma atleta em busca da salvação. Cheguei ao 10º andar quase deixando as entranhas pelo caminho. 

Contos da Gel ReevesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora