Capítulo 3

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{1938 palavras}

A Luz que Sobra nos Bastidores

Me chamo Zoey Lemos. Tenho vinte anos e estou no limiar de iniciar a faculdade de artes cênicas. O teatro, para mim, nunca foi um mero passatempo, mas a forma mais pura de respiração. 

Culpo William Shakespeare e as noites da minha adolescência devorando suas tragédias e romances por ter me tornado esse ser dramático e incurável.

Nasci e cresci numa joia medieval fincada na Espanha: Buitrago del Lozoya. Uma cidadezinha com pouco mais de dois mil habitantes, cercada por muralhas antigas e castelos anteriores ao ano mil. Viver ali me ensinou o valor da proximidade. 

Sou a típica espanhola de riso largo, que cumprimenta todos na rua, distribui abraços e cultiva amizades como quem cuida de um jardim. Meu lema sempre foi simples: "Seja gentil, pois o mundo dá voltas"

E o mundo, meus caros, dá voltas inacreditáveis.

Não escrevo estas linhas para me promover diante de vocês — quer estejam num sofá confortável, na condução lotada ou no aconchego da cama. Escrevo para testemunhar o milagre de um sonho de infância que se recusou a morrer.

Tudo começou no dia 21 de abril de 2019...

Estava no início das aulas da faculdade quando o professor Edmundo Salt fez um anúncio que paralisou a sala: deveríamos criar uma cena baseada no universo de Jane Austen para apresentar a um convidado misterioso. 

O tal convidado trazia nas mãos um contrato com um grande diretor e buscava um talento acadêmico para subir aos palcos profissionais. Meu coração errou as batidas. Quase pulei da cadeira. Além de Shakespeare, Jane Austen e Júlia Quinn eram minhas conselheiras secretas.

Eu era caloura, um autêntico "patinho feio" num ambiente onde todos já se conheciam de outros módulos. Tentei me aproximar com a simpatia que trouxe de Buitrago, mas a acolhida foi gélida.

— O que você quer com a gente, Zoey? — cortou Karen, a aluna prodígio da turma. Uma garota talentosa, mas de um drama espinhoso e arrogância soberba.

— Eu só queria conhecer vocês, meu nome é...

— Garota, já sabemos quem você é! — interrompeu ela, com um sorriso de escárnio. — A filhinha de papai que precisou do prestígio da família para conseguir uma vaga.

Aquilo cortou meu peito. Meus pais gerenciam uma rede modesta de hotéis na Espanha e apoiam projetos sociais. Eles realmente ajudaram a instituição, mas minha vaga ali fora conquistada em noites mal dormidas, testes exaustivos e leituras decoradas até a exaustão.

— Você está enganada, Karen — respondi, engolindo a seco. — Meus pais têm recursos, sim, mas a minha vaga aqui foi conquistada com o meu suor, meu talento e as minhas provas.

Karen soltou uma risada debochada, sendo acompanhada em coro pelo restante da sala. Senti o rosto queimar. A sensação de isolamento era absoluta.

Quando o professor Salt retornou à sala, o silêncio se estabeleceu instantaneamente. Percebendo minha figura ainda de pé e desconcertada, ele arqueou a sobrancelha: — Zoey? É surda, minha jovem? — Os risinhos contidos ecoaram. 

Sentei-me rapidamente, com as mãos trêmulas. — Pois bem — continuou Salt. — Quero que se dividam em grupos e tragam uma cena ensaiada.

Em questão de segundos, as panelinhas se fecharam. Sobrei apenas eu. — Professor, o meu grupo está completo! — provocou Karen, lançando-me um olhar de triunfo.

Contos da Gel ReevesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora