Capítulo 8

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A Luz Atrás das Lentes

02/01/2023 — 23:45

A vida tem uma forma muito esquisita de nos puxar o tapete para ensinar a voar. Hoje  descobri que o chão dói, dói demais... mas o céu que se abre depois que a poeira baixa é maior do que qualquer medo que já senti...

Quando terminou o ensino médio e conquistou a tão sonhada vaga na faculdade de fotografia, Aurora vislumbrava um futuro feito de cores, enquadramentos perfeitos e poesia visual. 

No entanto, a rotina esmagadora da graduação, somada às madrugadas sem dormir, aos prazos desumanos e à pressão constante por excelência, acabou cobrando um preço alto de sua saúde mental. 

Ela adquiriu um sério desequilíbrio nervoso, uma ansiedade latente que refletia diretamente em seus movimentos: seu corpo parecia perder a sintonização com o espaço, tornando-a extremamente estabanada.

Aurora tinha vinte e dois anos e vivia em um estado constante de alerta. Trabalhando como auxiliar de fotografia no coração de Hollywood, ela respirava arte, mas travava uma batalha diária contra a própria física e contra a gravidade.

Para piorar, trabalhava sob o comando de Calvin, um chefe cuja rigidez beirava a crueldade. Calvin não conhecia a arte de liderar; era um homem pequeno, frustrado e abusivo, que sentia um prazer sádico em ridicularizar a garota na frente de quem quer que estivesse por perto.

Logo no início do expediente, se ela passasse pelo corredor e tentasse ser gentil, o espetáculo de humilhação começava: — Bom dia, Sr. Calvin! — cumprimentava ela, ajustando a alça da bolsa que escorregava.

— Opa, atenção pessoal! — bradava Calvin, rindo alto para os demais assistentes. — Tirem tudo o que for de vidro das mesas! A Estabanada chegou! Cuidado para não tropeçar na própria sombra hoje, Aurora, ou vou ter que deduzir mais um tripé do seu salário miserável!

Em outro momento, quando ela tentava entregar um relatório: — Aqui está o mapa de luz que o senhor pediu...

— Olha só... — Calvin pegava as folhas com desgosto, balançando a cabeça. — Surpreendente você não ter derramado café no papel. Mas me diga, Aurora, essa letra torta é reflexo do seu cérebro ou da sua incapacidade motora? Se você gastasse metade do tempo em que tropeça tentando aprender fotografia de verdade, talvez servisse para algo mais do que limpar minhas lentes.

Calvin não conhecia a arte de liderar; usava o medo e o bullying para cobrir a própria insignificância.

Naquela manhã de dois de janeiro, o estúdio fervilhava. Na noite anterior, Aurora havia recebido uma notificação oficial em seu celular informando que toda a equipe do filme inclusive de fotografia estava convocada para a reunião central de uma nova e grandiosa regravação de Frankenstein

O e-mail, porém, mantinha o mistério: não revelava quem estaria no elenco e tampouco quem dirigiria o projeto.

Quando Aurora colocou os pés na imensa sala de conferências, seu coração deu um salto. Ela trazia a tiracolo uma pasta de couro e, dentro dela, um segredo: desde 2017, quando assistira ao filme Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar — no qual um jovem ator fazia apenas uma pequena ponta —, ela nutria uma admiração profunda e silenciosa por Jacob Elordi. 

Poucos sabiam, mas Aurora era uma desenhista talentosa e costumava retratar rostos de artistas que admirava. Naquela manhã, por pura coincidência, ela havia colocado na pasta o retrato detalhado que fizera do rosto de Jacob na noite anterior, apenas para mostrar para sua melhor amiga no estúdio durante o almoço.

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