Capítulo 7

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{1312 palavras}

O Roteiro das Linhas Tortas

Era uma vez...

Porque não há como contar certas histórias sem essa bendita frase de contos de fadas. Meu relato, afinal, não difere em nada de um sonho urdido por encanto.

Chamo-me Arrietty Salazar. E antes que você se pergunte de onde raios surgiu "Arrietty", poupo-lhe a angústia: minha mãe sempre foi apaixonada por animações e mundos fantásticos. 

Meu nome veio do filme O Mundo dos Pequeninos, onde uma garota minúscula descobre a amizade de um humano. 

Mas, sem rodeios, o que vou contar nada tem a ver com a ficção do cinema — e sim com um acontecimento tão absurdamente improvável que daria um filme digno de Oscar.

Tudo aconteceu em vinte e nove de março de dois mil e vinte e dois. Acordei com batidas suaves na porta e um coro desafinado, mas amoroso: "Parabéns pra você, nesta data querida...". Era o meu aniversário de vinte e sete anos.

À frente do cortejo vinha minha mãe, Dona Salazar, uma morena de olhos cor de mel e cabelos negros como noite sem luar; meu pai, o Senhor Moreno — que de moreno não tinha nada, sendo um polaco de sardas e olhos verde-água —; e meu irmão caçula, Eddy, de vinte anos, uma perfeita mistura dos dois.

Trouxeram uma bandeja prateada recheada de pães de queijo, leite com chocolate, bolachas e cinco cupcakes alinhados em círculo em volta de um bolo menor com uma vela acesa. Choraminguei de emoção, abraçando um por um. 

Eddy, esfomeado como sempre, já deitou os olhos claros nos bolinhos antes mesmo de eu soprar a vela. — Como sempre, um fominha! — implicou meu pai, rindo.

Após devorarmos o banquete matinal, contei que passaria a tarde com minhas amigas. Elas haviam me convidado para ir ao cinema assistir a O Hobbit, que completava dez anos de lançamento. Meu pai celebrou: odiava me ver enclausurada em casa nos meus aniversários.

Depois de lavar o rosto e arrumar meu cabelo black power — deixando-o bem volumoso e brilhante —, ajudei minha mãe com as roupas sujas e fui para a cozinha. O telefone tocou. 

Era Kati, minha amiga de longa data. — Parabéns, meu raio de sol! — comemorou ela. — Já estou passando aí para te pegar!

Kati chegou em seu Fiat 500 preto. Ela era de uma família abastada de médicos e amava cuidar das amigas. Eu pretendia apenas ir ao cinema, mas fui arrastada por todas as lojas do Anashopping e, em seguida, para um salão de beleza. 

Saí de lá por volta das cinco da tarde: cabelos escovados, maquiagem sutil e vestindo uma peça nova presenteada por ela. 

Parecia uma boneca de porcelana. — Está linda! Agora vamos ao Brasil Park Shopping, porque as meninas estão nos esperando — disse Kati, entusiasmada.

O shopping estava num alvoroço atípico, lotado até os corredores superiores. Encontramos nossas amigas perto da bilheteria: Cora, radiante em um vestido verde; as gêmeas Ísis e Zara, no seu clássico estilo preto e branco; e Agnes, de saia amarela.

Após um abraço coletivo sufocante que me deixou morrendo de vergonha, fomos para a sala de exibição. Agnes havia reservado a fileira B, bem perto da tela grande. 

Acomodamo-nos na B12 e B13. Faltavam ainda quarenta minutos para a sessão começar — o que era estranho, pois elas nunca chegavam com tanta antecedência.

De repente, um funcionário alto e magro saiu por uma porta lateral trazendo quatro cadeiras dobráveis e posicionando-as no centro do palco, logo abaixo da tela. — O que está acontecendo, gente? — perguntei, confusa.

Contos da Gel ReevesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora