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O Feitiço do Pano de Fundo
Sonhos são matérias curiosas. Uns almejam a solenidade dos diplomas; outros, a aritmética exata da fortuna. Há quem busque um amor sob medida e há, claro, os audaciosos que se alinham na fila dos impossíveis.
Eu? Minha alma fez morada no topo da última categoria. O culpado atende pelo nome de Tom Hiddleston. Sim, o próprio — a elegância em pessoa, o sorriso rasgado e o charme perigoso do deus da Trapaça.
Adivinho o seu pensamento: "Lá vem mais uma adolescente deslumbrada alimentando uma ilusão de papelaria." Mas espere. O tempo já desfez minha juventude ingênua e me entregou a lucidez dos vinte anos — embora o encanto permaneça intacto.
Chamo-me Ana Stefan. Meu refúgio é Milady do Valley, um pedaço de terra bucólico e pacato, distante do burburinho brasiliense. Uma cidade pequena, sim, mas abastecida do básico para a sobrevivência moderna: internet rápida, TV a cabo e os devaneios que tornam o cotidiano suportável.
Ganho a vida no único supermercado da cidade, registrando compras como caixa, e costuro o futuro nas horas vagas. Minha entrada tardia na vida acadêmica não foi preguiça, mas geografia: cresci no isolamento da roça, onde as estradas eram longas e as escolas, distantes.
Hoje, traço meu próprio caminho. E a história do meu começo é esta...
Tudo começou no ano derradeiro do ensino médio. A contagem regressiva ecoava nos corredores e a minha pressa tinha destino certo: a faculdade de Artes Visuais. Pintar é a minha respiração; os rabiscos, meu templo. Minha obsessão particular são as caricaturas humanas — esse milagre poético de aprisionar a alma e o riso de alguém em poucas linhas de nanquim.
Moro numa casa simples, de três cômodos modestos e um puxadinho que reivindiquei como meu. Ali ergui meu quarto-ateliê: um santuário de tintas, papéis e luz filtrada. É o meu pedaço de céu privado, onde a realidade lá fora pede licença e a liberdade não cobra taxa.
E como todo incêndio precisa de uma faísca, o meu renasceu em 2013, aos meus treze anos. Entrei numa sala escura para assistir a Amor Profundo — a tragédia de Hester Collyer, dividida entre a segurança fria de um casamento arranjado e a paixão avassaladora nos braços de um ex-piloto de caça.
Quando ele apareceu na tela, o mundo ao redor silenciou. Foi uma sentença instantânea: ele seria meu primeiro e irremediável crush. Um amor tão teimoso que devorei meu primeiro ano inteiro de salário no mercado para pagar aulas de inglês.
Tudo para decifrar sua voz sem a mediação de legendas. Hoje, falo o idioma fluentemente. Um presente indireto dele. Vida longa ao TH!
Minha rotina carrega esse ritual secreto. Acordo pontualmente às seis da manhã, caminho até o meu pôster favorito na parede e deposito um selinho terno naqueles lábios de papel impresso. Só então, revigorada pela minha própria poesia, me dou ao luxo de começar o dia.
O Teatro das Impossibilidades
Às sete e meia da manhã, ganho os paralelepípedos da cidade rumo ao supermercado. Às cinco da tarde, no caminho de volta, cumpro o meu ritual sagrado: uma parada estratégica na banca do seu Jorge.
Compro qualquer revista que traga, na capa ou nas páginas amareladas do miolo, um vislumbre do homem dos meus sonhos. Chego em casa, descanso e mergulho em algum arquivo inédito sobre ele.
Hoje, aos vinte anos, o amor que dedico a Tom Hiddleston não encolheu um milímetro. E o que vou revelar a vocês agora tangencia o surreal. Uma mera mortal, vinda de um ponto no mapa com menos de dois mil e quinhentos habitantes, realizou o que a lógica chamaria de absurdo.
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Contos da Gel Reeves
RomanceDestaque Eles diziam que era impossível. Mas ninguém avisou aos sonhadores. Em "Contos da Gel", o limite entre o real e o imaginário se desfaz. Cada história é um fragmento de alma, um sonho que ousou existir - mesmo quando o mundo dizia "não". Aqui...
