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Onde a Poeira Vira Estrela
Como a vida é engraçada, não é? Ela prega umas peças inacreditáveis na gente, deixando a razão completamente desnorteada.
Para começo de conversa, meu nome é Desidéria. Sou uma mulher desempregada e sozinha — sozinha no sentido mais estrito de amor e família. Minha história foi ceifada de um golpe só: pai, mãe, dois irmãos e até o namorado.
O motivo? Velocidade, asfalto molhado e falta de manutenção no veículo. Um segundo de desatenção alheia e todo meu mundo ruiu. Agora somos apenas eu, minha alma e a solidão. Tenho vinte e sete anos e, pela graça dos céus, moro com minha melhor amiga há três, desde que perdi todo mundo.
Sou formada em Análises Clínicas, mas não exerço por conta de um detalhe cruel: não tenho carteira de habilitação. Se formar no curso dos sonhos, pagar caro por cada centímetro de diploma e ser impedida de atuar pela falta de uma CNH é para matar qualquer um.
Desenvolvi uma fobia paralisante de volante, embreagem e velocidade. O trauma me congelou. Durante três anos, saí à procura de qualquer oportunidade na minha área, mas o roteiro era sempre o mesmo: "Não", "Ligamos depois", "Exige habilitação".
Cansada de ter meus sonhos pisoteados, tomei uma decisão drástica: abandonei os laboratórios e fui tentar a sorte onde nunca imaginei.
Tornei-me atendente de limpeza num cinema qualquer de São Paulo. O trabalho em si era varrer, passar pano e polir. Os donos eram obcecados por higiene; não permitiam um único bilhete rasgado no chão e pagavam razoavelmente bem para a gente, literalmente, lamber o piso.
Aceitei o emprego por indicação da minha amiga e porque, além das análises, eu tinha outra paixão secreta: o cinema. Amava de tudo — dos grandes clássicos aos filmes trash bizarros, aqueles em que um corte no dedo jorra rios de sangue cenográfico.
A sétima arte era meu refúgio; permitia-me sonhar com mundos onde o impossível acontecia. Todos os dias, eu pegava dois ônibus e um metrô para chegar ao trabalho. Naquele 2 de julho de 2021, a rotina prometia ser diferente.
O cinema, que costumava abrir às onze, só abriria às duas da tarde: haveria uma sessão VIP de autógrafos com o elenco da série Sombra e Ossos, da Netflix. Não ligava muito para séries. Para mim, a maioria era monótona.
No entanto, os corredores do cinema não falavam de outra coisa. Pela manhã, limpei os dez banheiros, passei pelas salas de projeção e garanti que nada passasse despercebido pelos supervisores.
— Desidéria! — chamou Mateus, o gerente geral.
Era o tipo de homem que, dentro da empresa, parecia vestir a capa preta de carrasco e carregar a foice do lado. — Não se esqueça de organizar a mesa de autógrafos. Teremos seis atores e três membros da produção!
— Sim, senhor. Vou cuidar disso agora mesmo. — Enquanto eu alinhava a estrutura, Molly, uma das meninas da pipocaria, veio me ajudar.
— Desidéria, você já assistiu a Sombra e Ossos?
— Nem sei do que se trata! — confessei. Ela me encarou, achando que era piada.
Vendo minha cara de paisagem, assustou-se: — Nossa! Como assim? Você não é deste mundo!
Gesticulou, indignada, e voltou a colocar as plaquinhas de identificação de metal na mesa: Eric Heisserer, Shawn Levy, Freddy Carter, Archie Renaux, Kit Young, Amita Suman, Jessie Mei Li...
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Contos da Gel Reeves
RomanceDestaque Eles diziam que era impossível. Mas ninguém avisou aos sonhadores. Em "Contos da Gel", o limite entre o real e o imaginário se desfaz. Cada história é um fragmento de alma, um sonho que ousou existir - mesmo quando o mundo dizia "não". Aqui...
