Capitulo 29

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A cozinha da sede estava quase vazia naquela noite. O som distante dos elevadores ecoava como um suspiro metálico, enquanto o cheiro de alho tostando no azeite preenchia o ar.
Wanda mexia a panela com calma, os olhos semicerrados pelo vapor.

— Cheiro bom — Amelia comentou, encostando no batente da porta. Trazia o cabelo preso num coque frouxo e um cansaço nos ombros que nem o moletom largo disfarçava.

— Senta — Wanda apontou com a colher de pau. — É só um macarrão, mas vai aquecer.

Amelia obedeceu, apoiando os cotovelos na mesa de madeira. O calor suave do fogão criava um casulo de tranquilidade, contraste perfeito para a tempestade que ela carregava por dentro.

Wanda trouxe os pratos e se sentou de frente, a luz amarela da cozinha refletindo no vinho tinto. Comeram em silêncio por alguns minutos, apenas o som dos talheres contra a porcelana.

Amelia largou o garfo devagar, os dedos tamborilando na borda do prato.
— Wanda... — a voz saiu baixa, quase um pedido de ajuda. — Eu não sei mais o que fazer com a Nat.

Wanda ergueu o olhar, paciente.
— O que aconteceu?

Amelia inspirou fundo, sentindo o cheiro do vinho antes de falar.
— Ela tem pesadelos. Quase toda noite. Acorda ofegante, suando... às vezes nem percebe que tá chorando. — A garganta de Amelia apertou, mas ela continuou. — E quando eu tento abraçar, ela se afasta. Diz que tá tudo bem. Mas eu sei que não tá.

Wanda pousou o garfo, a expressão suave mas intensa.
— Crises de ansiedade?

— Sim. — Amelia passou a mão pelos cabelos, nervosa. — Ela quase nunca se abre. Nunca. Fica lá, com aquele olhar distante... e eu... eu não sei como ajudar. Eu só vejo ela se quebrando e não consigo alcançar.

O silêncio entre elas pesou, cheio de respirações contidas. A brisa do ar-condicionado pareceu mais fria.

Wanda apoiou a mão sobre a de Amelia, apertando de leve.
— Nat passou por coisas que nem nós conseguimos imaginar. Ela foi treinada para esconder. Mas você já faz muito. Você tá lá. Isso conta.

Amelia fechou os olhos, sentindo a pressão quente da mão de Wanda.
— Às vezes eu tenho medo de que ela ache que eu não sou suficiente. Que... que eu não entendo.

— Você é suficiente — Wanda respondeu firme, sem hesitar. — Talvez ela precise de tempo. Mas ela sabe que você é casa.

As palavras ficaram suspensas, aquecendo a sala mais do que a comida. Amelia respirou fundo, tentando soltar um pouco do peso.

— Obrigada, Wanda.

— Sempre. — A feiticeira sorriu de leve. — Agora come antes que o macarrão esfrie.

Amelia riu baixinho, um riso cansado, mas real. O cheiro de alho e vinho voltou a preencher o espaço, e por um instante a cozinha pareceu um lugar seguro, longe de pesadelos e missões impossíveis.

Um mês se passa.
O corredor metálico da sede dos Vingadores exalava o cheiro frio de aço e eletricidade quando Amelia ajustou a fivela do cinto, o coração pulsando como um tambor surdo. A missão ecoava na mente como um presságio.

— Amy... tem certeza de que tá bem pra fazer isso? — A voz de Wanda, baixa e carregada de preocupação, quebrou o silêncio.

Amelia ergueu o rosto, o olhar decidido apesar da tensão nos ombros.
— Wanda... eu tô bem. Eu juro pra você, eu não faria isso se não me sentisse preparada, ok?

Wanda suspirou, um suspiro longo, quase um lamento.
— Okay...

Natasha aproximou-se por trás de Amelia, a presença quente e sólida.
— Vem cá... deixa eu arrumar isso aqui.

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