Capitulo 37

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Mary permanecia imóvel na escada, o corpo colado ao corrimão como se a madeira pudesse sustentá-la contra a avalanche de palavras que ecoava pelo andar de baixo. Cada sílaba vinha carregada de um peso que apertava seu peito.

Regina ergueu o rosto, os olhos sombrios refletindo a luz fraca do corredor. — Eles estão certos... — a voz saiu quase como um lamento, quebrada. — Não somos a família dela só porque temos o mesmo sangue...

Mary engoliu em seco, o coração latejando. — Não pode estar falando sério. — O sussurro parecia mais um pedido do que uma negação.

Regina virou-se lentamente, e havia um amargor calmo em seu olhar. — A gente não vê ela há dezessete anos... — a pausa foi um corte. — Você a entregou e ainda mentiu, dizendo que estava morta. Ela tem todo o direito de agir assim. E você sabe disso.

Mary sentiu o ar se tornar denso, como se a casa inteira a julgasse. Suspira, um som trêmulo que mal preencheu o espaço.

Regina inclinou levemente a cabeça, a voz mais baixa. — Sabe como eu a reconheci?

Mary mal conseguia falar. — Como?

— Ela tem os olhos da Emma... — Regina deixou escapar, e a lembrança parecia doer.

Mary fechou os olhos, absorvendo a revelação. — Profundos.

Regina assentiu devagar. — É... profundos.

Um leve sorriso de orgulho, dolorido, atravessou o rosto de Mary. — Ela é uma linda mulher.

O som de passos suaves fez as duas se virarem. Amelia surgiu no topo da escada, o olhar firme apesar da sombra de cansaço.

— Precisamos achar Cora e terminar isso logo... — a voz dela cortou o ar como uma lâmina, mas havia uma hesitação delicada quando completou: — Eu sei que ela é sua mãe, Dinda, mas...

Regina respirou fundo, o peito subindo em um movimento contido. — Você está certa. — O tom carregava uma decisão amarga. — Você é mais importante que uma bruxa velha que nunca se importou comigo.

Um sorriso quase imperceptível, frágil, surgiu nos lábios de Amelia — um brilho breve que não chegou aos olhos. Juntas, todos desceram para a cozinha, os passos ecoando pelo corredor de madeira, exceto Mary e Amelia, que permaneceram na meia-luz da escada.

— Espera. — A palavra de Amelia soou baixa, porém impossível de ignorar.

Mary voltou-se para a filha, cada músculo retesado.

— Desculpa pelo que eu disse... — Amelia respirou fundo, a confissão arranhando a garganta. — Eu não quero você morta.

Mary sentiu um golpe no peito. O mundo pareceu parar, deixando apenas o som do próprio coração. — Me perdoa... — sua voz quebrou. — Por não ter sido uma boa mãe. Por... por não ter sido mãe. — Os olhos se encheram de lágrimas quentes. — Eu sinto a sua falta todos os dias da minha vida.

Amelia hesitou, olhando para as próprias mãos antes de pousá-las, com cuidado, sobre as de Mary. O contato era frágil, mas carregava o peso de anos de silêncio. Ela suspirou. — Bem... eu tô aqui agora. E... eu ainda estou muito machucada com você e o papai, mas... eu tô aqui.

Mary prendeu a respiração, a esperança vibrando quase dolorosa. — Posso... posso te dar um abraço?

O olhar de Amelia vacilou, e o silêncio entre elas foi uma ferida aberta. Por fim, ela suspirou, curta e decidida. — É... pode.

Mary a envolveu com os braços, apertando a filha contra o peito como se temesse que ela desaparecesse de novo. As lágrimas deslizaram livres quando sussurrou, a voz embargada contra os cabelos da jovem: — Eu sinto muito, filha.

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