Capitulo 46

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A porta rangeu suavemente quando Nat entrou. O ar da noite ainda grudava em sua pele, frio e úmido, trazendo um cheiro distante de asfalto molhado. Amelia ergueu o olhar do canto da sala, a luz amarelada do abajur desenhando sombras profundas no rosto.

— Eu disse que te buscava, venho a pé? — a voz de Amelia veio baixa, mas carregada de algo que Nat não conseguiu nomear.

— Não. Carol me deu uma carona... ela disse que não vai poder jantar aqui hoje — respondeu Nat, as palavras arrastadas, como se quisessem ocupar o silêncio da casa.

Amelia fitou-a por um segundo que pareceu longo demais e suspirou, o som suave, porém pesado.
— Okay... quer pizza mesmo assim?

Ela passou perto, e o perfume familiar de shampoo se misturou a algo mais áspero. Amelia parou, o corpo levemente inclinado. O cheiro de tequila atingiu seu olfato.

— Muito lindo... bebendo quando eu não posso — disse, a voz entre ironia e um cansaço que queimava.

Sem esperar resposta, pegou o telefone. O clique das teclas ecoou pela sala silenciosa enquanto encomendava a pizza, cada toque seco e preciso. Nat a observava, o peito apertado, a respiração contida.

— Quer ajuda para guardar as coisas? — perguntou Nat quando Amelia colocou o telefone sobre a mesa com um leve estalo.

Amelia voltou o olhar para ela, os olhos escuros refletindo a luz baixa.
— Quero. Suas coisas, vamos buscar quando?

— Elas já tão no quarto, Steve trouxe pra mim enquanto a gente almoçava — respondeu Nat.

Amelia riu, um som breve, quase um sopro.
— Você se garante, é bom.

Nat arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— O que?

— Você se garante — repetiu Amelia, ainda sorrindo, como se provasse uma piada silenciosa.

Nat riu junto, mas o olhar se desviou quando reparou no quarto. O chão estava coberto por folhas de jornal, cada uma colada ao piso como um mosaico improvisado.

— O que... por que o chão tá assim? — perguntou, a voz carregada de surpresa.

— Bem... eu não gostei da cor, pensei em pintar de preto — disse Amelia, com um leve levantar de ombros.

Nat deixou o olhar vagar pelas paredes. Ali, uma mancha escura, um traço de tinta já riscando a cor antiga.
— Pensou fazendo? — murmurou, quase sorrindo diante da ousadia.

Amelia sorriu, caminhando devagar até o quarto, a luz da sala contornando sua silhueta.
— Bem... eu... é que... — a frase ficou suspensa, como se o resto fosse segredo.

— Você tá certa, preto é melhor — disse Nat, a voz mais quente, mais baixa.

Sem pressa, tirou a roupa do dia, deixando cair cada peça com um som suave no chão, e vestiu um calção largo e uma camiseta grande. As duas começaram a pintar, o cheiro de tinta fresca enchendo o ar, denso e quase intoxicante, misturado ao som ritmado das pinceladas.

O silêncio entre elas não era vazio; era cheio de respirações, de olhares curtos, de algo que crescia invisível.

— Amor, pizza chegou — a voz de Amelia cortou o ar com um sorriso contido.

Ela pagou o entregador na porta, o tilintar das moedas misturando-se ao perfume da pizza quente. Voltou ao quarto, equilibrando a caixa, e a colocou sobre a mesinha de centro antes de se sentar no chão, cruzando as pernas, já com uma fatia na mão.

Nat se aproximou, o estômago roncando.
— Ótimo, eu tô faminta — disse, sentando-se ao lado dela, pegando sua fatia.

Por um momento, o cheiro de tinta, pizza e tequila se misturou, e Nat não conseguiu conter as palavras:
— Você tá linda.

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